Farmacêuticos criticam declaração do Ministro da Saúde

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Na última sexta-feira, 24 de junho, o ministro da saúde, o engenheiro Ricardo Barros, deu uma declaração bastante infeliz. Ao falar sobre a renovação do contrato do Programa Mais Médicos, em Ponta Grossa, ele disse "Se tiver algum ponto em que médicos brasileiros não queiram ir, teremos lá um médico cubano. É melhor ter um médico cubano do que um farmacêutico ou uma benzedeira".

A declaração do ministro causou uma cascata de manifestações e repúdios e demonstrou seu desconhecimento do papel e da atuação do farmacêutico.

O professor farmacêutico sergipano, Wellington Barros da Silva, publicou em sua página na rede social o texto "Sobre a diferença entre Farmacêuticos, benzedeiras e Ministros leigos..." que alcançou mais de mil curtidas e compartilhamentos. O Conselho Federal de Farmácia também se manifestou através da nota "Ministro da Saúde fala o que não deve e será recebido com protesto em Santa Catarina".

Vários conselhos regionais, entidades, profissionais e acadêmicos publicaram notas de repúdio e encaminharam mensagens de manifestações para a assessoria do Ministro e pediram uma retratação com o uso da hashtag #RetrataçãoJáMinistro e #MaisSaudeMaisRespeito.

No dia 26 de junho foi publicada uma nota de retratação na página da rede social do Ministro da Saúde. Porém, a nota causou ainda mais indignação por parte dos farmacêuticos.

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Na segunda-feira, dia 27 de junho, os farmacêuticos catarinenses, liderados pelo CRF-SC se organizaram protestos em Florianópolis e Joinville. Em Joinville as farmacêuticas Liege Bernardo e Lisiane Moro falaram ao Ministro sobre o papel do Farmacêutico (assista ao vídeo). Ao final também entregaram ao Ministro a nota de repúdio "Ponte para o passado" construída pelo CRF-SC e por diversas entidades e associações farmacêuticas.

 

Confira o que foi dito ao Ministro da Saúde Ricardo Barros durante sua visita a Joinville, pelos farmacêuticos que protestavam contra sua fala desrespeitosa e sua ignorância a respeito do funcionamento do Sistema Único de Saúde. No vídeo, as farmacêuticas Liege Bernardo e Lisiane Moro apresentam o papel do farmacêutico como profissional de saúde ao Ministro.Publicado por Conselho Regional de Farmácia do Estado de Santa Catarina em Terça, 28 de junho de 2016

 

 

 Confira algumas das Notas Públicadas:

 

Nota do CRF-SC "Ponte para o Passado"

Os farmacêuticos catarinenses vêm a público repudiar o teor da declaração emitida nesta sexta, 24, pelo engenheiro Ricardo Barros, ministro interino da Saúde, que viralizou nas redes sociais – acompanhada de milhares de manifestações de rejeição da categoria farmacêutica brasileira, emanadas de organizações, entidades e profissionais do setor.

Em síntese, durante uma atividade na cidade paranaense de Ponta Grossa, o ministro disse que vai manter o programa Mais Médicos porque “é melhor um médico cubano do que um farmacêutico ou uma benzedeira para atender à população”.
É uma dessas asneiras que já nascem imortais.
No mínimo, porque revela de forma crua a folclórica falta de domínio de um gestor público sobre a área que deveria administrar.

Mas a boca fala do que o coração está cheio, então é preciso avaliar o pronunciamento de Ricardo Barros dentro do contexto da política ministerial ora em curso.
O engenheiro já assumiu o Ministério da Saúde mal-disfarçando o desprezo pela premissa constitucional de que a saúde é direito de todos e dever do Estado.

Não se mostrou conformado com os pilares de integralidade, universalidade e gratuidade do SUS. Anunciou que queria diminuir o SUS, considerado por ele um sistema muito grande – e foi obrigado a retratar-se da declaração, tangido pelos ditames do politicamente correto. Mas segue na marcha da insensatez, empenhado em reduzir o SUS a uma colcha de retalhos de programas básicos sem fontes claras de financiamento.

O ministro interino esforça-se não apenas em ignorar 30 anos de conquistas sociais na promoção da saúde pública. Ainda elabora projetos de lei para ressuscitar um modelo de exclusão social e restrição de acesso ao cuidado que foi jogado na lata do lixo da História.
Naturalmente, o engenheiro interino na Saúde nega em público o que acaricia em segredo com orientações políticas na Esplanada dos Ministérios. Vez por outra, a verdade explode em declarações como a desta sexta – e então merece o repúdio formal e explícito de todas as entidades que subscrevem esta nota.

É curioso que no seu discurso o ministro Ricardo Barros ao mesmo tempo tenha insultado benzedeiras – detentoras de conhecimentos tombados como patrimônio cultural imaterial da Humanidade – e a ciência farmacêutica, com 200 mil profissionais indispensáveis na execução multidisciplinar das políticas sociais de saúde pública, um fato incontestável que o gestor da pasta da Saúde deveria não só conhecer como enaltecer.

Os farmacêuticos brasileiros, em suas manifestações sociais de repúdio ao leigo ministro da Saúde, defenderam a Ciência, a Responsabilidade Técnica, o conhecimento, o estudo e os fundamentos multidisciplinares que sustentam o SUS – mas não se ofenderam por constar em um discurso na mesma frase que benzedeiras. Benzedeiras têm um valor reconhecido até pela ONU.

A ignorância do ministro interino da Saúde é ofensiva. A incapacidade de compreensão técnica do gestor público é que revolta. Se o principal desafio de um gestor – qualquer gestor – é formar e manter equipes qualificadas e motivadas, o ministro interino Ricardo Barros promove política de terra arrasada, desqualificando o SUS e os profissionais de saúde que compõem o complexo Sistema Único de Saúde que ele desconhece e ataca.
A categoria farmacêutica brasileira – em especial a notável e qualificada geração de farmacêuticos catarinense – não é diminuída pela fala do ministro mas, reage a ela, acendendo um alerta: a sociedade brasileira deve ficar muito atenta a este momento porque a diretriz política em gestão parece estar construindo a primeira “ponte para o futuro” que conduz ao passado.

Conselho Regional de Farmácia de SC
Sindicato dos Farmacêutico de SC
Coordenações dos cursos de farmácia: UFSC, UNIBAVE, UNOESC Videira, UNOESC São Miguel do Oeste, UNIVALI, UNESC, UNIARP, UNISUL
Anfarmag SC
SBFFC SC
Associação de Farmacêuticos da Região da AMURES
Associação de Farmacêuticos da Região de Chapecó
Associação de Farmacêuticos do Alto Uruguai Catarinense
Associação de Farmacêuticos da Região do Alto Vale do Rio do Peixe
Associação de Farmacêuticos Proprietários de Farmácia do Basil
EREFAR SUL
SBAC SC
Farma&Farma
Masterfarma

 

Nota do Dr. Wellington Barros da Silva

Sobre a diferença entre Farmacêuticos, benzedeiras e Ministros leigos...
Em seu livro “Olhares sobre o mundo moderno”, o filósofo francês Paul Valéry vaticinou que “A política foi primeiro a arte de impedir as pessoas de se intrometerem naquilo que lhes diz respeito. Em época posterior, acrescentaram-lhe a arte de forçar as pessoas a decidir sobre o que não entendem.”
Lembrei-me desta citação quando, com inacreditável perplexidade e pungente indignação recebi a notícia da deselegante declaração atribuída ao Ministro Interino da Saúde, o Engenheiro Civil Ricardo José Magalhães Barros, no momento da sua visita ao município de Ponta Grossa no dia de hoje (24/06). A despeito da prática rotineira dos “ditos e desditos” que temos observado nestas semanas de instalação do governo interino de Sr. Michel Temer, onde Ministros talvez mal assessorados fazem declarações infelizes para logo em seguida terem de se retratar, parece-nos imperativo como farmacêuticos e como cidadãos, dar uma resposta a altura de tão desastradas e desrespeitosas palavras de alguém que representa o estado brasileiro. Menos pela sua qualificação para opinar sobre temas os quais lhe são alheios como leigo que é, mas principalmente pela posição que ocupa como um Ministro de Estado, sua excelência o ministro deve RESPEITO a tão nobre profissão como a Farmácia e da nossa parte não há outra alternativa a não ser REPUDIAR VEEMENTEMENTE uma atitude depreciativa de quem tem a obrigação constitucional do decoro como ministro e do zelo pela saúde da população.
Talvez o ministro não entenda muito bem e muito menos saiba a diferença entre uma benzedeira, ou um atendente de farmácia, e um profissional com formação de nível superior em Farmácia. Certamente ele sabe diferenciar as qualificações de um mestre de obras e um engenheiro civil! Sua fala desastrada em nada contribui para aquilo que nossa sociedade precisa em um momento tão difícil da nossa história. Como engenheiro ele poderia contribuir para a “construção de pontes” que nos conduzam à conciliação nacional e à melhoria das condições de vida de um povo desassistido de muita coisa, desassistido de educação, de saúde, de emprego, de segurança e moradia e, mais recentemente, ÓRFÃO DA DECÊNCIA E DA HONESTIDADE daqueles que deveriam nos representar na vida política.
Quero crer que foi um ato falho, afinal, com o leigo que é, um neófito nos temas sanitários, é possível ao ministro-engenheiro cometer equívocos. Afinal, errar é humano...!
Refleti sobre a declaração de Sua Excelência e pensei cá com meus botões: “Antes uma equipe de saúde integrada, do que confiar a assistência à saúde das pessoas ao improviso...”; “Antes aproveitar todo o potencial de TODAS as profissões da saúde, do que apostar exclusivamente em um modelo insustentável de saúde”; “Antes aceitar a GRANDE contribuição à saúde que os farmacêuticos brasileiros estão dispostos a dar, de forma colaborativa, do que recorrer à soluções pontuais e passageiras”; “Antes manter as conquistas que obtivemos nestes anos de implantação do SUS, do que apostar no seu desmantelamento”; “Antes optar pela prudência, do que abrir a boca para falar bobagens”
É por que as pessoas precisam de MAIS SAÚDE, que nós, os farmacêuticos brasileiros podemos e devemos CUIDAR DA SAÚDE do nosso povo, apesar do que possa pensar ou dizer Sua Excelência o Engenheiro Civil Sr. Ricardo Barros.
‪#‎MaisSaudeMaisRespeito‬

 

Nota do Conselho Federal de Farmácia "Ministro da Saúde fala o que não deve e será recebido com protesto em Santa Catarina"

protesto cff ricardo barrosDurante sua visita a Santa Catarina, nesta segunda-feira, 27 de junho, o ministro interino da Saúde Ricardo Barros será recebido com um protesto de farmacêuticos. O ato está sendo organizado pelo Conselho Regional de Farmácia do estado (CRF/SC) e pelas demais entidades farmacêuticas catarinenses, com o apoio do Conselho Federal de Farmácia (CFF). O motivo não é salário ou outra reivindicação trabalhista. Em nome da categoria, que congrega mais de 200 mil farmacêuticos em todo o país, o grupo protestará por respeito.

Na sexta-feira passada, 24, o ministro declarou durante viagem a Ponta Grossa (PR), em referência à prorrogação do Programa Mais Médicos, que "é melhor ter um médico cubano do que um farmacêutico ou uma benzedeira para atender à população". A declaração foi recebida com indignação pelos farmacêuticos. Desde então, a revolta está fervilhando nas redes sociais e o ministro até ensaiou uma retratação, em seu perfil no Facebook, alegando que sua fala foi divulgada de forma descontextualizada. Mas os farmacêuticos não ficaram satisfeitos. Querem um pedido de desculpas formal.

"De uma vez só, o ministro desrespeitou os farmacêuticos e demonstrou uma visão equivocada e retrógrada, que contraria o que é preconizado pelas organizações da saúde mais importantes em todo mundo, a assistência multidisciplinar como melhor modelo de prática em saúde pública. Não é por acaso que essa é uma das diretrizes do SUS", comenta o presidente do CFF, Walter da Silva Jorge João, que, no ato, será representado pelo conselheiro federal de Farmácia pelo estado de Santa Catarina, Paulo Boff.

Para o presidente do CFF, o ministro equivoca-se gravemente ao alardear um modelo assistencial fragmentado, hierarquizado, centrado no médico. Somente para citar um exemplo, dados do Ministério da Saúde revelam que 82% dos pacientes que utilizam 5 ou mais medicamentos de uso contínuo o fazem de forma incorreta ou demonstram baixa adesão ao tratamento. Um em cada três pacientes abandona algum tratamento, 54% omitem doses, 33% usam medicamentos em horários errados, 21% adicionam doses não prescritas, 13% não iniciam algum tratamento prescrito, entre outras constatações. "O caso se torna mais grave se considerarmos que o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de automedicação, seguramente pela influência de propaganda antiética, que induz ao consumo irresponsável de medicamentos".

Não é a primeira vez que o ministro despeja sua oratória inconsequente e néscia diante da mídia. Recentemente, numa demonstração de total falta, inclusive, de habilidade política, ele disse que o tamanho do SUS deveria ser revisto. Foi obrigado a voltar a atrás. "É o que deveria fazer novamente agora, caso tenha realmente interesse de oferecer ao povo brasileiro, a resposta que ele espera do Sistema Único de Saúde (SUS)", acrescenta o presidente do CFF.