Formas de Intoxicações

 Formas de Intoxicações



Normalmente se ignora a fonte de intoxicação que motiva a enfermidade do paciente. Entretanto, a suspeita de tal eventualidade e sua ocorrência devem entrar no diagnóstico diferencial corrente do médico prático.

As principais etiologias toxicológicas são:

· Acidentais

· Iatrogênicas

· Profissionais

· Suicidas

· Homicidas

· Rurais

· Urbanas

· Sociais (toxicomanias)

· Genéticas

 

a) INTOXICAÇÕES ACIDENTAIS

São as mais correntes em pediatria. As crianças se intoxicam ao ingerir medicamentos, substâncias cáusticas (ácidos ou álcalis), domissanitários ou defensivos devido as mais diversas circunstâncias, seja durante suas peripécias e brincadeiras, seja motivada pelo descuido e imprudência dos adultos ou sem causas aparentemente justificadas. Também sofrem, semelhante aos adultos, mas com agravo clínico de grandes proporções, as conseqüências das emanações de monóxido de carbono das cozinhas e de calefações; ou comem alimentos venenosos por conterem toxinas naturais ou por contaminação extrínsica; ou confundem plantas venenosas com as que não são, freqüentemente ingerindo sementes altamente tóxicas como a do pinhão-bravo (pinhão-paraguaio Jatropha sp.); ou são vítimas de picadas de animais peçonhentos como serpentes, escorpiões, aranhas, lacraias ou lepidópteros. Absorvem através da pele as anilinas das tintas de suas roupas e sapatos, pelo couro cabeludo componentes de xampus pediculocidas a base de piretróides, cuja absorção e toxicidade são amplificados em virtude de lesões de continuidade provocadas pelo repetido ato das crianças de coçar a cabeça com as unhas. Muito preocupante, é a utilização indiscriminada do acaricida tóxico NEOCIDâ (tem 02 organofosforados: malation/ diclorvós) consagrado pela medicina popular como potente ectoparasiticida é lipossolúvel e penetra a pele integra. Outra forma que merece destaque é a intoxicação acidental medicamentosa, muito presente em Pronto-Socorros e Centros de Saúde, determinando muitas vezes, severo agravo à saúde, particulamente da faixa etária de 1-4 de idade, a mais acometida. Na verdade, as toxinas, os venenos, as substâncias nocivas podem ingressar em nosso organismo por qualquer via, às vezes sem que o paciente ou seus familiares percebam e se previnam contra essa eventualidade. A respeito dessa causa de intoxicação, toda precaução e todo cuidado são poucos, todos nós estamos o tempo todo sob risco iminente. Por isso, lançamos a seguinte questão:

"- Já nos intoxicamos alguma vez acidentalmente?" Muito provavelmente sim. "-Estamos nos intoxicando atualmente ?" ou ainda, "-Estamos nos intoxicando agora, neste momento ?". Pode até parecer que não, mas se pensarmos na qualidade da nossa água potável, será que não está com excesso de sais metálicos como prata e aluminio utilizados no seu tratamento; e o ar que respiramos nos centros urbanos, já imaginou a quantidade de gases tóxicos e partículas que inspiramos; e quando estamos ao lado do fumante, não fumamos passivamente até 2 metros de distância dele mesmo em local aberto. Muitas formas de intoxicação são sutis, estão inseridas no nosso cotidiano e estão implicitas, nos contaminado cronicamente, de modo contínuo, ininterrupto até a saturação completa dos nossos mecanismos de ajuste e controle homeostáticos, gerando diversos distúrbios patológicos de diagnósticos dificeis e terapias marcadas pelo insucesso.

 

b) IATROGÊNICAS

Esta forma engloba os quadros clínicos causados por tratamentos e terapias, especialmente a farmacoterapia prescrita e não-prescrita. Podem ser devidos à sensibilidade individual do paciente, a idiossincrasia (seja uma resposta idiossincrásica por hiperdinamia, hipodinamia ou paradinamia), como as alergias dos pacientes frente a doses normais de certas drogas dentro de uma tratamento convencional (penicilina, sulfamidas, salicilatos, etc) gerando as farmacoalergias; ou também a tratamentos errôneos executados por leigos inaptos e imperitos como curandeiros. Intoxicações por "chá de papoula", "anis estrelado" e tantos outros elementos da medicina folclórica brasileira, que ainda se multiplicam em nosso meio e se apoiam nas crenças populares e num sistema público de saúde deficitário e mercantilista. As intoxicações por salicilatos (AAS, aspirina), por exempo, são muito comuns, porque os adultos dão este medicamento às crianças em quantidades que ultrapassam as doses terapêuticas e as administram sob o pretexto de alimento ou como "docinho" agradável ao paladar, deturpando completamente o real significado do medicamento, bem como sua finalidade. As atrosidade tarapêuticas não param por aí, xaropes antitussígenos a base de codeína ou de depressores respiratórios são prescritos e indicados para tratar afecções gripais ou rino-alérgicas; sedativos e psicofármacos somados a toda e variada gama de medicamentos que são autoprescritos encerram potencialmente perigos colaterais que conduzem a sintomatologia tóxica ou a verdadeiros envenenamentos.

 

c) PROFISSIONAIS

Também chamada de ocupacional, esta etiologia afeta a quem trabalha com substâncias tóxica e também a seus familiares e pessoas diretamente ligadas ao convívio no ambiente de trabalho. Pequenas indústrias estabelecidas no próprio lar; ofocinas de reparação de acumuladores elétricos para veículos automotores, impressoras, oficina de cromados, lojas de pinturas com tintas contendo chumbo, podem determinar o saturnismo, tinturarias, fábricas metalúrgicas, indústrias de borracha, etc. É imprescindível averiguar cuidadosamente na anamnese do doente a natureza de suas tarefas profissionais para esclarecer uma possível relação causa/efeito de sua enfermidade, traçando uma sensata hipótese diagnóstica. Igual conduta cabe ao pediatra e ao farmacêutico ao interrogar sobre o ambiente em que vive a criança.

 

d) SUICIDA

A auto-intoxicação deliberada é o epifenômeno de uma enfermidade cujo verdadeiro diagnóstico não é o coma barbitúrico ou o coma tóxico e sim tentativa de suicício (TS) ou ainda, tentaiva de autoextermínio (TAE). Feito o diagnóstico correto do caso - a cada dia mais freqüente e numeroso - o tratamento não se limitará ao cuidado urgente do quadro tóxico e manutenção das funções vitais, imperativo ineludível para salvar a vida, mas deverá complementar-se de maneira harmônica, com o enfoque e cuidado global do paciente em sua patologia psicossocial. Para isto têm sido criados os Centros de Assistência ao Suicida, destinados a facilitar a reabilitação daqueles que tentaram se auto-eliminar para prevenir possíveis tentativas. Estes Centros estão ligados a uma entidade internacional que planifica a tarefa comum, enquadrada na integração de esforços através de equipes constituídas por toxicólogos, psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e voluntários. A equipe multiprofissional deve auxiliar nessas crises vitais para resgatar efetivamente a vontade de viver do suicida, recuperando-o integralmente, removendo as causas do episódio e melhorando, na medida do possível, a psicopatologia individual de cada caso. Nas cidades grandes, onde as TS ocorrem com maior freqüência, é recomendável a criação de Centros Multiprofissionais de Assistência ao Suicida, para atender ao problema de forma idônea e integral.

 

e) HOMICIDAS

A suspeita de homicídios por envenenamentos escapa à responsabilidade de juízes, funcionários ou policiais, que intervém após a denúncia, e corresponde ao médico comum, em sua prática diária, pública ou particular. No capítulo da medicina legal, assim como outros desta especialidade, é de natureza eminentemente clíncia. O crime mediante o uso de tóxicos toma contato direto com o médico através da vítima "enferma". Uma negligência culposa surge com o fornecimento de atestado de óbito sem haver suspeitado do mecanismo anômalo da morte, atendo-se ao simples dado do processo terminal.

A toxicologia apresenta-se com os quadros da medicina corrente: neurológicos, psiquiátricos, cardiovasculares, hepáticos, etc. O que vale não é o diagnóstico sintomático, correto porém insuficiente, e sim o etiológico.

Não devemos relegar este tipo de homicídio a reduzidos ambientes sórdidos e excêntricos ou limitar-se a possibilidades dos argumentos de novelas, cinena ou televisão. Nas famílias mais bem conceituadas podem existir personalidades alteradas, desígnios funestos ou paixões aberrantes capazes de provocar intoxicações delituosas. A cobiça, o ódio, os ciúmes não têm variado com o tempo enm com as classes sociais. Suspeitando da possibilidade desta etiologia ilegal, ver-se-á com surpresa que sua realidade é bastante superior ao número de casos conhecidos.

 

f) RURAIS

A medicina rural atua em muitos quadros de intoxicação: defensivos agrícolas, plantas tóxicas, animais peçonhentos e intoxicações endêmicas. Quanto aos agropesticidas, estes nos obrigam a mantermos uma atualização constante do conhecimento, pois se renovam periodicamente em suas fórmulas químicas, variando por isso a sua sintomatologia característica, seu grau de toxicidade e um tratamento específico e eficiente, juntamente com um antídoto em particular.

Hoje em dia não há propriedade rural que não os manuseie. O perigo ameaça o trabalhador e também sua família em contato direto ou indireto com tão perigosas substâncias. Médicos e farmacêuticos atuam em um duplo papel de curar as intoxicações, individuais ou coletivas, e de trabalhar com agentes de saúde e de medicina preventiva. Devem aproveitar o contato com seus pacientes para elucidá-los sobre os perigos potenciais desses produtos, seu uso correto, as precauções que devem tomar, a destruição das embalagens vazias, a tríplice lavagem das embalagens vazias, o cuidado com a contaminação da água dos mananciais, represas, rios, lençol freático, e os cuidados constantes com os alimentos tratados com defensivos agrícolas.

É extremamente útil e valioso a vinculação interprofissional de médicos e farmacêuticos com engenheiros agrônomos e veterinários, pois de sua tarefa comum redundarão evidentes benefícios para a saúde rural e urbana.

 

g) URBANA

Uma característica das grandes cidades é a chamada poluição urbana, que em alguns centros urbanos está assumindo proporções significativas. Descrevem-se dois tipos mais importantes: a poluição oxidante ou tipo "Los Angeles", em que a principal fonte são os veículos automotores, e a redutora ou tipo "Londres", conseqüente à queima de materiais para a produção de calor. Em ambos os casos as conseqüências sobre o ser humano são expressivas, pois apesar de geralmente não muito graves atingem proporção considerável da população. Os principais agentes químicos envolvidos são o monóxido de carbono, óxidos de enxofre e de nitrogênio, hidrocarbonetos e ozônio.

 

h) SOCIAIS

As toxicomanias não se reduzem aos casos graves, se bem que felizmente pouco freqüentes, de morfinômanos ou cocainômanos. O diagnóstico clínico deve ser feito segundo a pessoa e não conforme a droga. É necessário estabelecer a existência de uma dependência entre o enfermo (toxicomaníaco) e o tóxico. Esta relação produz euforia, hábito, costume e determina a síndrome de abstinência quando o organismo do viciado se priva do tóxico. Entretanto, a marca patognomônica de uma toxicomania é a mudança de personalidade, ou seja, a despersonalização. Este conjunto de sinais e sintomas nos leva à conclusão de que estamos diante de um toxicômano, ainda que aparentemente a droga motivadora seja menos tirana que a morfina e a cocaína. O enfoque supracitado autoriza a considerar como toxicômano os alcoólatras, os fumantes inveterados, os habituados aos barbitúricos e às anfetaminas, etc. A transferência da personalidade de um indivíduo acarretado pelas drogas, gerando os fenômenos e síndromes inerentes a dependência química ou a dependência psiquíca, está sempre presente para aquelas substâncias consideradas drogas despersonalizantes e por isso, dentre outros efeitos nocivos ao organismo humano, são na sua maioria ilícitos e tem seu tráfico combatido pela polícia federal.

O toxicômano carece de tratamento especial e deve estar amparado por uma equipe multiprofissional (médicos, toxicólogos, farmacêuticos, psicólogos e assistentes sociais) juntamente com a família e amigos, objetivando a perda lenta e progressiva do hábito de consumir a droga como uma parte desintoxicante e outra, mais transcendental, de natureza psiquiátrica, tentando restaurar o livre-arbítrio do enfermo e romper todos os elos de ligação toxicômano-droga até anular completamente todos os níveis de dependência à droga.

Em pediatria tem-se diagnosticado a toxicomania de "cheirar colas", prouzidas pela inalação de solventes voláteis que causam embriaquez e narcose, conduzindo, às vezes, ao coma grave. A questão é bastante preocupante, em virtude da facilidade da instalação da dependência química, pois as criança tornam-se viciadas logo após as primeiras experiências com a aspiração dos solventes das colas modernas como a cola de sapateiro, a qual pode determinar lesões irreversíveis no SNC.

 

i) GENÉTICAS

O processamento desta matéria tem esclarecido muitos quadros considerados como de "idiossincrasia a drogas", mas na realidade, correspondem a falhas genéticas que provocam deficiências enzimáticas. Grupos étnicos, geneticamente puros, que não toleram anestesia nem medicamentos depressores do SNC; labilidade tipo familiar nos eritrócitos de certas pessoas afetadas por quadros de hemólise intravascular e icterícia provocada, por exempo, pela ingestão de certas favas ou de produtos farmacêuticos, por não possuírem a enzima glicose-6-fosfato-desidrogenase suficiente para o metabolismo da hemácia, "acatalásia" ou impossibilidade de decompor a água oxigenada, por ausência das catalases no sangue; aqueles indivíduos da raça dos Judeos com deficiência de esterases séricas (principalmente a butirilcolinesterase) que não conseguem hidrolisar a succilcolina (bloqueador neuromuscular) podem evoluir para dispnéia, apnéia e parada respiratória. O panorama é amplo e este enfoque permite explicar quadros considerados antes como idiopáticos ou de origem desconhecida.

 

Fonte:

SCHVARTSMAN, Samuel & ALMEIDA, Waldemar F. Tratamento das Intoxicações Agudas. 4.ª ed., São Paulo: Associação Nacional de Defensivos Agrícolas, 1989.