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O papel das Análises Clínicas na Assistência Farmacêutica

farmaceutico-assistencia-farmaceutica-analises-clinicasO Farmacêutico é um profissional com formação multidisciplinar que o permite atuar em várias áreas da saúde. A atual concepção de currículo proposto pelas Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Farmácia (Resolução CNE/CES 2 de 19 de fevereiro de 2002), do Conselho Nacional de Educação - define o Farmacêutico como o profissional de formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, para atuar em todos os níveis de atenção à saúde, com base no rigor científico e intelectual. Capacitado ao exercício de atividades referentes aos fármacos e medicamentos, às análises clínicas e toxicológicas, controle, produção e análise de alimentos, pautado em princípios éticos e na compreensão da realidade social, cultural e econômica do seu meio, dirigindo sua atuação para a transformação da realidade em benefício da sociedade.

Na situação acima apresentada, cumpre-nos avaliar a presença do farmacêutico no campo das Análises Clínicas. A crescente automação , os custos materiais e a entrada de grupos financeiros internacionais na área da saúde, criando grandes redes de laboratórios em detrimento dos pequenos laboratórios, contribuem para que a presença do Farmacêutico no laboratório de análises clínicas seja cada vez menor.

Não parece correto que um profissional plenamente capacitado para sua função seja desestimulado quando não se vê contemplado com o papel que lhe cabe. O Farmacêutico nas Análises Clínicas tem papel fundamental na recuperação da saúde do indivíduo, atendendo a população no paradigma da Assistência Farmacêutica. Afinal, o que o Farmacêutico vai fazer com seu conhecimento em Análises Clínicas?

A resposta vem da própria história da Farmácia como estabelecimento de saúde, onde na primeira década do século XX, eram realizados os primeiros exames de análises clínicas - a pesquisa de glicose na urina, utilizando o reagente de Benedict, uma solução de sulfato de Cobre que reduzida em meio alcalino à quente, indicava a presença de açúcares redutores (Benedict, S.R.: a reagente for detection of reducing sugars.J.Biol.Chem., 5:485,1909).

A evolução do conhecimento científico proporcionou a descoberta de numerosos fármacos, determinando a realização de pesquisas para verificar sua eficácia terapêutica, efeitos tóxicos, metabólicos, locais e formas de atuação. Áreas de estudos presentes no currículo farmacêutico - como a Farmacologia e seus desdobramentos como a Farmacocinética e os conceitos de biodisponi-bilidade e biotransforma-ção, Fisiologia, Bioquímica, Hematologia, Microbiologia e Parasitologia - dão base à monitorização laboratorial da terapêutica ou um novo conceito deste estudo, que é a Farmacometria.

O conhecimento científico do Farmacêutico em Análises Clínicas se aplica, então, em dois ambientes. O primeiro onde são realizados os exames, ou seja, o laboratório de Análises Clínicas; o segundo na Farmácia Comunitária, quando, na dispensação do medicamento ao paciente, forem observadas e informadas as possíveis conseqüências de seu uso, objetivando a adesão do paciente ao tratamento e a recuperação da saúde, proporcionando, deste modo, a efetiva Assistência Farmacêutica.

Os medicamentos atuam de diversas formas. Um grande número dos utilizados por via oral ou injetável são metabolizados (ou biotransformados) no fígado, excretados através dos rins, atuando em outros tecidos como medula óssea, sistema nervoso central, ouvido , etc., podendo ser analisados através de exames de sangue ou urina.
A simples observação dos níveis de proteínas plasmáticas de um indivíduo já proporciona informação quanto à absorção de determinados medicamentos. Rotineiramente, as dosagens de enzimas hepáticas (transaminases, gama glutamil transferase, fosfatase alcalina, etc.), de resíduos metabólicos (uréia, creatinina, ácido úrico), de eletrólitos (sódio, potássio, cloro, magnésio, cálcio, fósforo), do perfil hematológico e/ou imunológico são necessários para monitorar a terapêutica de forma indireta.

Quanto à dose, deve-se verificar que a concentração terapêutica ideal é aquela em que se obtém o máximo do benefício com o menor efeito indesejável possível, que é denominada de janela terapêutica. Numerosos fármacos, como por exemplo lítio, carbamazepina, digoxina, fenitoína, gentamicina, lidocaína e ciclosporina, têm estes níveis muito próximos e, desta forma, seu acompanhamento terapêutico deve ser rigoroso. Analisando a biodisponibilidade, estaremos monitorando a terapêutica de forma direta. Quanto maior o intervalo, mais segura a sua utilização. "Todas as substâncias são venenos, não existe nenhuma que não seja. A dose correta diferencia o veneno do remédio" (Paracelsus - 1493 / 1541).

O farmacêutico utiliza tecnologia avançada, como espectrometria de massa, cromatografia gasosa, cromatografia de alta performance (HPLC), radioimunoensaio, enzimaimu-noensaio e outros mais simples, como a colorimetria, a fotocolorimetria e a espectrofotometria para a análise destes fármacos .

Várias são as situações observadas na monitorização terapêutica: o insucesso terapêutico de determinado medicamento, quando usado dentro das doses e intervalos recomendados; o ajuste na dosagem após determinado tempo de uso, a terapêutica com drogas anticoagulantes (Heparina e Cumarínicos) que requer uma verificação do tempo e atividade de protrombina para avaliar sua eficácia e ajustar a dose. A prevenção e tratamento de intoxicações, realizadas em pacientes usuários de lítio, carbamazepina, ácido valpróico, digoxina, etc; prevenção de efeitos colaterais ao acumulo de medicamentos, observado em usuários de Ciclosporina , gentamicina, etc; ensaios clínicos para o estudo de novos medicamentos .

A monitorização terapêutica tem como meta informar ao clínico a faixa ideal de concentração plasmática do fármaco, com metodologia confiável e reproduzível, para que seu uso seja mais seguro e científico , participando o Farmacêutico como importante componente da equipe de saúde.

O Ministério da Saúde estruturou a Política Nacional de Saúde traçando as diretrizes terapêuticas e protocolos clínicos de medicamentos excepcionais. Um grupo de cientistas, liderados pelo Professor Paulo Dornelles Picon, da UFRGS, elaborou um livro com o mesmo título, onde são abordadas estas diretrizes. O estudo dos fluxogramas de tratamento e dispensação demonstram as etapas a serem seguidas pelo farmacêutico quando dispensar o medicamento e seu acompanhamento terapêutico. As doses prescritas são avaliadas pelo Farmacêutico para verificar sua conformidade.

Os critérios de inclusão e exclusão do protocolo clínico de cada doença são avaliados pela Ficha Farmacote-rapêutica, que registra o acompanhamento do paciente por um ano e onde constam seus dados, avaliação farmacoterapêutica, monitorização do tratamento e registro da dispensação.

Em vários protocolos, consta da avaliação farmacoterapêutica o registro de exames laboratoriais. O papel do farmacêutico vai da realização dos exames até a decisão de dispensar ou não o medicamento, com base nos resultados encontrados que constam no fluxograma de dispensação.

Podemos, assim, destacar alguns exemplos. A terapêutica pela Isotretinoína para o tratamento da acne, que requer avaliação do hemograma, transaminases e triglicerídeos na fase inicial do tratamento e depois a cada trimestre. A teratogenicidade deste medicamento indica para paciente do sexo feminino a dosagem da fração beta do hormônio corio-gonadotrófico (teste de gravidez). No tratamento de pacientes anêmicos, portadores de insuficiência renal crônica, o uso da Eritropoietina Humana Recombinante requer uma precisa avaliação dos parâmetros hematológicos e dos níveis de ferro e proteínas de conjugação do ferro que deve ser realizada mensalmente. Outros medicamentos, como o hidróxido de ferro III, têm idêntica avaliação.

 No tratamento farmacológico das dislipidemias, o uso de Estatinas ou Vastatinas, Fibratos e Ácido Nicotínico são acompanhados pelas dosagens de Colesterol total, suas frações HDL, LDL e VLDL e Triglicerídeos para avaliação da terapêutica, das Transaminases, CPK e TSH para verificar possíveis efeitos sistêmicos indesejáveis. A hepatite viral crônica B tratada com o Interferon alfa e a Lamivudina têm como critério de inclusão as provas sorológicas HbsAg, HbeAg e da carga viral do HBV, além das dosagens bioquímicas das transaminases.

A dose de Lamivudina a ser administrada é estabelecida através da depuração de creatinina endógena que avalia a função renal . Os critérios de exclusão do tratamento com Interferon alfa baseiam-se em parâmetros hematológicos com a contagem de plaquetas e de leucócitos. Caso apresentem diminuição, o tratamento deverá ter a dose reduzida ou ser interrompido.

O Farmacêutico no laboratório de análises clínicas deve sempre questionar o paciente quanto ao uso de medicamentos de forma a acompanhar o resultado dos exames. O uso de medicamentos, tais com ácido acetilsalicílico ou corticoesteróides, alteram de forma significativa alguns exames, podendo provocar divergências na interpretação do resultado pelo médico clínico. O laudo do exame deve citar a informação questionada ao paciente.

O Farmacêutico que atua na Farmácia Comunitária deve ter conhecimento dos dados farmacológicos do medicamento, de suas possíveis interações com parâmetros biológicos e com outros medicamentos, aplicando o conhecimento de seu currículo multidisciplinar de modo prestar uma perfeita Assistência Farmacêutica aos seus pacientes.

Bibliografia recomendada:

Wallach, Jacques. Interpretação de exames laboratoriais : 6ª edição. Rio de Janeiro: Editora Medsi, 1999.
Henry, J.B. Diagnóstico Clínico e tratamento através de métodos laboratoriais : 19ª edição : Editora Manole, 1999 .
Goodman & Gilman's . The Pharmacological Basis of Therapeutics. 10a ed. McGraw-Hill. 2001
Picon, P.D. & Beltrane , A . Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas - Medicamentos Excepcionais. 1ª edição. Secretaria de Assistência à Saúde. Ministério da Saúde . Brasília, 2002.
Darcy Roberto Lima.. Manual de Farmacologia Clínica , Terapêutica e Toxicologia. Editora Medsi. Rio de Janeiro. 2002/2003.
Professor Assistente do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Farmácia da UFRJ.
Fonte: Revista Riopharma (CRF-RJ)

Fonte: Centro Colaborador em Vigilância Sanitária (Cecovisa) - http://cedoc.ensp.fiocruz.br
Escrito por: Jorge Fernando Teixeira Soares


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