Pesquisadora alerta para crescimento de plágio e explica sobre as diferentes concepções

plagio-pesquisa-academicaA posição privilegiada do Brasil em relação aos demais países da América Latina, no que diz respeito à produção acadêmica, tem colocado em pauta a discussão sobre a prática do plágio. Quanto maior o número de publicações, maior será a exposição dos pesquisadores. E o alerta foi dado, já que estudos recentes mostram um crescimento na taxa de retractions (cancelamento de publicações) na ciência. Um deles indica um aumento de 0.25% a cerca de 1% entre a década de 1970 e 2007, para publicações indexadas no Medline.


Em outro trabalho recente, foi identificado que, entre os anos de 1988 e 2008, o percentual de casos de plágio associados a retractions era três vezes maior quando comparados com outros tipos de má conduta, como a fabricação de dados. Para alertar estudantes e pesquisadores sobre esse risco, sobre as diferentes concepções do plágio, e do por que desse assunto estar em pauta na academia, a pesquisadora do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, Sonia Vasconcelos, deu a seguinte entrevista ao Informe Ensp.

 

Nos Estados Unidos e na Europa a prática do plágio é vista com bastante seriedade, sendo também tratada com bastante rigor. No entanto, na América Latina, o tema entrou em pauta no meio acadêmico há poucos anos. Por que tratá-lo neste momento?

Sonia Vasconcelos: Na verdade, são numerosas razões, mas a primeira que eu enumeraria é o fato de que essa discussão sobre integridade em pesquisa que envolve o plágio tem se tornado uma demanda internacional, pois se relaciona com uma discussão sobre má conduta em pesquisa, que tem gerado bastante preocupação na comunidade acadêmica de forma geral. Não seria razoável que apenas países como os EUA, Inglaterra, Canadá , Japão, Austrália e alguns outros se preocupassem com essa questão.

No Brasil, especificamente, temos uma produção científica privilegiada no contexto da América Latina, o que nos torna cada vez mais expostos ao cenário mundial, e é natural que essas demandas também sejam relevantes para nós; afinal de contas, quanto maior o número de publicações, maior será a exposição dos pesquisadores, o diálogo no cenário internacional e a demanda de qualidade. Como essa demanda, relacionada à integridade em pesquisa, tem um impacto muito forte nas políticas editoriais, obviamente é de interesse dos países que possuem uma produção científica acelerada. E nesse contexto se inclui o Brasil e outros países da América Latina.

Em relação ao aumento da incidência do plágio acadêmico especificamente, ele se torna uma preocupação natural no cenário de produtividade em pesquisa da maioria dos países. O olhar cada vez mais atento para a confiabilidade dos dados, para a redundância na pesquisa e maior atenção às políticas editoriais permeiem o contexto dos pesquisadores.

 

Como definiria o plágio na academia?

Sonia: De forma geral, o plágio acadêmico se configura quando há a apropriação de ideias, processos, resultados ou palavras de outro autor como se fossem daquele que os utilizou. Mas é importante lembrar que há várias questões ainda mal resolvidas sobre essa definição e sobre sua aplicação no contexto global da ciência.

 

Sua apresentação abordou as diferentes percepções em relação ao plágio. Variam de acordo com a cultura, as percepções de pesquisador para pesquisador, a linha editorial dos periódicos. Há forma de regular o plágio e de conciliar esse conflito?

Sonia: Temos boas e más notícias em relação a esse aspecto. A má é que esse conflito sempre vai existir. Falamos de um contexto cultural que inclui noções de propriedade intelectual, originalidade textual, e isso varia nas diferentes culturas. Essas visões permanecem e permeiam o indivíduo o tempo inteiro, tenha ele uma carreira científica ou não. De uma forma geral, se discute que autores de culturas confucianas têm uma tendência, desde os primeiros estágios de aprendizado escolar, a lidar com o texto de uma forma muito autoritária. Nesses países (não só nesses!), o indivíduo não é incentivado a desenvolver seu próprio discurso, a exercer sua autonomia intelectual como escritor, mas sim a internalizar a fala dos autores já estabelecidos. Para eles é difícil se adequar a essas demandas de referenciamento.

Por outro lado, a boa noticia é que há formas de lidar com essas questões de diversidade no que se refere à produção científica. O cenário de produção intelectual da publicação [em língua inglesa] da pesquisa, por exemplo, tende a favorecer pesquisadores dessas culturas, já que vêm investindo fortemente em políticas de incentivo às habilidades comunicativas de seus cientistas em língua inglesa.

Além disso, as demandas editoriais são bastante razoáveis por um lado e podem ser, sim, atendidas se as instituições desses autores participarem da discussão sobre o que de fato é necessário para que, por exemplo, jovens pesquisadores possam lidar com sucesso com as questões requeridas para a submissão de um artigo científico original e bem elaborado. Cada vez mais pesquisadores de culturas de países não anglofônicos, por exemplo, têm a oportunidade de participar de discussões pontuais sobre as publicações. Temos várias associações de editores com discussões frequentes sobre integridade em pesquisa, plágio, autoria, redundância, e lá eles podem dialogar e colocar suas questões. Uma dessas oportunidades se dá por meio da World Association of Medical Editors (Wame).

 

Os softwares de combate ao plágio são realmente eficientes?

Sonia: Existem vários tipos de software. Um dos fatores que vai fazer com que um seja mais eficiente que o outro é a base de dados que utiliza. Se for um software barato para professores de ensino médio detectarem plágio em alguns trabalhos, por exemplo, há programas relativamente eficazes, embora com uma base limitada, mas que são bem baratos. Obviamente, ele terá uma limitação de conteúdo, que só poderá atender a demandas pontuais.

No caso da academia, a eficácia do software tem também a ver com a base de dados utilizada e com qual resultado ele gera para o pesquisador/editor. Na verdade, no cenário de publicações, os softwares utilizados dão informações geniais sobre o nível de similaridade que uma publicação pode ter em relação a outra. O que sempre se discute, porém, é que uma coisa é a utilização do software, outra é a intervenção humana para identificar o que essa similaridade representa. Os programas não resolvem os problemas sozinhos. Existe muito trabalho aliado à utilização deles no caso das publicações científicas.

 

Atualmente os jovens pesquisadores se deparam com a obrigação de publicar, até mesmo como uma forma de sobrevivência acadêmica, da mesma forma que os cursos precisam ter boa produção para serem bem avaliados. Como analisa esse modelo?

Sonia: Não sou contra o incentivo às publicações, desde que se chegue a bons resultados. Na minha visão, o estímulo para publicação no país pode trazer a sensação da "mecânica da produtividade" por um lado, mas todos nós temos de achar o melhor caminho para lidar com essa realidade, que não é só do Brasil. O lado positivo que vejo para o jovem pesquisador é o incentivo para que ele aumente o comprometimento social com sua pesquisa e torne-a disponível para a avaliação dos pares aqui e fora do país. Não é nada fácil lidar com as atuais demandas de produtividade, todos nós sabemos disso. Porém, se esses novos autores científicos receberem as orientações e o suporte de que necessitam para que suas contribuições sejam compartilhadas com a comunidade acadêmica internacional, o resultado pode ser muito estimulante para o nosso país. Eu acredito e aposto que isso é possível.

Há, no Brasil, pouco apoio para o pesquisador se tornar escritor, autor científico. Essa formação muita vezes acontece de maneira atropelada. Por um lado isso é natural, pois o país está em crescimento, e as coisas acontecem de maneira acelerada, mas essa é a hora de mudar. O ganho vai ser para as próprias instituições brasileiras.

 

A senhora se referiu ao autoplágio em sua apresentação. Como ele se configura?

Sonia: O autoplágio é muito complicado, existe conflito sobre sua definição, os seus limites não são bem definidos e há pouco consenso entre as áreas sobre o quanto de empréstimo você pode ter de determinado trabalho. Alguns editores consideram razoável 30% de similaridade de um texto anterior do mesmo autor sem se configurar como autoplágio. Mas se trata de uma tentativa de se estabelecer uma métrica, que é extremamente controversa, já que, em alguns casos, 30% de um trabalho com poucos dados originais pode representar quase a contribuição inteira. O autoplágio tem sido olhado como ponto que merece bastante atenção e senso crítico dos editores e do autor quando ele esta falando de resultados originais. Um aproveitamento grande de um trabalho anterior numa contribuição que deve ser original pode parecer uma indesejada repetição.

 

Fonte:
Texto: Agência Fiocruz de Notícias, escrito por Filipe Leonel

Imagem: Obtida no website da scribendi

 

Nota da Edição do Pfarma:
Em fevereiro um professor do curso de farmácia da USP foi demitido por suposto plágio.
Fique alerta, contribua para o meio acadêmico publique estudos originais.
Para os estudantes de farmácia, o plágio é muito comum durante a graduação, quando estava realizando meu TCC, a coordenação do curso constatou 3 trabalhos que contiam plágio (um deles tinha sido comprado através da internet).