A farmacêutica sem laboratório

A farmacêutica sem laboratório



Pequena e com pesquisadores dispersos por hospitais e centros de pesquisa, a Recepta realiza um feito inédito para uma empresa brasileira: o teste de uma inovadora droga contra o câncer


Até recentemente, o único vínculo entre o nome Odebrecht e a área de saúde era uma série de programas de filantropia patrocinados pelo grupo, um dos maiores conglomerados do país. Mas, há três anos, o empresário Emílio Odebrecht enxergou nesse mercado uma oportunidade para voltar a empreender. Tornou-se, assim, sócio da Recepta, uma farmacêutica que foge aos padrões do setor. Sua estrutura física se resume a um diminuto escritório nos arredores da avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona sul de São Paulo. A grande maioria dos 31 funcionários, entre pesquisadores e médicos, se divide em vários centros de pesquisa e hospitais brasileiros. Apesar de minúscula, a Recepta é dona de um feito inédito: é a primeira empresa brasileira a realizar um teste de medicamento em pacientes com câncer de ovário. A droga em teste é um anticorpo monoclonal, uma nova categoria de medicamento que tem sido bem-sucedida no controle do câncer na fase de metástase - quando a doença se espalha além do foco original. "O que mais me chamou a atenção nesse projeto é seu teor inovador", diz Emílio Odebrecht, que deve aplicar 8 milhões de reais na Recepta e dobrar esse valor nos próximos dois anos. "É óbvio que é um negócio e que tem prazo para dar resultados, mas também é uma tentativa fascinante de avançar em um terreno muito pouco explorado no país."


A Recepta é um caso bem-acabado daquilo que os especialistas em gestão chamam de inovação aberta, ou open innovation, em inglês. Basicamente , a empresa se dedica a gerir conhecimento em torno de seu principal ativo - no caso, um conjunto de patentes de quatro anticorpos monoclonais (além do que está em teste, há três em fase de desenvolvimento). "Muita gente fala que o que fazemos é terceirização, mas esse conceito é equivocado", diz José Fernando Perez, presidente da empresa. "Na terceirização, encomenda-se um produto a outra empresa, que o entrega pronto. No nosso caso, acionamos uma rede de pesquisadores que trabalham em laboratórios parceiros para produzir e testar nossos medicamentos. Todo o processo de desenvolvimento é conjunto." Perez tem experiência nesse modelo de atuação. Como presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), entre 1993 e 2005, ele esteve à frente de um dos maiores esforços científicos conduzidos no Brasil, que culminou com a decodificação do genoma de uma bactéria causadora de pragas nos laranjais brasileiros. A pesquisa, concluída em 2000, depois de três anos de estudos, envolveu 192 pesquisadores em 35 laboratórios do estado de São Paulo. A decodificação do genoma da bactéria foi a primeira - e até agora única - pesquisa brasileira a ser publicada na capa da Nature, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo. "Agora queremos fazer na empresa o que fizemos no Projeto Genoma", diz Perez.


Por enquanto, a Recepta não gerou um único centavo de receita. Além de Emílio Odebrecht, são sócios do negócio o pecuarista Jovelino Mineiro e o Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, com sede em Nova York. Foram os pesquisadores do instituto - fundado na década de 70, pelo bilionário americano Daniel Ludwig - que descobriram os quatro anticorpos monoclonais que podem gerar os futuros medicamentos da empresa. Além dos investidores privados, a Recepta se beneficia de linhas de financiamento público à pesquisa por meio da Finep e do BNDES. Considerando todos os aportes até agora, a empresa já investiu 18 milhões de reais. Tanto Odebrecht quanto Perez evitam comentar números e estimativas de receita, mas calcula-se que, uma vez comprovada a eficácia de seu medicamento, o valor da Recepta pode ser catapultado para a casa das dezenas de milhões de dólares. Foi o que aconteceu com a empresa americana Morphotek, cujo modelo de negócios é praticamente idêntico ao da Recepta e que foi comprada por uma multinacional de medicamentos japonesa, a Esai, por 325 milhões de dólares quando tinha apenas um produto em catálogo. "Isso não significa que estamos montando a Recepta para vendê-la", diz Odebrecht. "O objetivo é obter receita basicamente com royalties dos medicamentos que vamos desenvolver." Trata-se de um negócio de altíssimo risco. E isso não deixa de ser uma boa notícia e um sinal de amadurecimento do capitalismo brasileiro.

Fonte: Revista Exame