Casos de tipo grave micose vêm intrigando pesquisadores da Fiocruz

paracoccidioidomicose


Novos casos de paracoccidioidomicose registrados na área do arco metropolitano do Rio de Janeiro vêm intrigando os pesquisadores do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). A doença, ocasionada por fungos do gênero Paracoccidioides, ataca o corpo em diversos locais, podendo levar o paciente a óbito. Preocupados com essa questão, a equipe da Coordenação de Residência Médica (Coreme/INI) convidou a pesquisadora do Laboratório de Pesquisa Clínica em Dermatologia Infecciosa, Priscila Marques de Macedo, para a sessão clínica Provável epidemia de paracoccidioidomicose tipo juvenil na Baixada Fluminense: o que pode estar acontecendo?, ocorrida no dia 20 de abril.

A paracoccidioidomicose é uma micose sistêmica grave causada por fungos dimórficos (aqueles que podem existir nas formas bolor, hifal, filamentosa na natureza, e como levedura em parasitismo), do gênero Paracoccidioides e que estão presentes no solo. Foi descrita pela primeira vez em 1908 por Adolfo Lutz e, apesar de restrita à América Latina, o Brasil concentra 80% dos casos da doença no mundo. “Ela apresenta a maior taxa de mortalidade entre todas as micoses sistêmicas em indivíduos imunocompetentes (aqueles cujo sistema imunológico responde normalmente quando em exposição a um antígeno) e é a oitava causa de mortalidade entre todas as doenças infecciosas parasitárias crônicas”, informou Priscila.

A doença ataca o corpo em vários locais, principalmente pulmões, boca, garganta, pele e linfonodos (gânglio, ínguas). A micose pode aparecer sob duas formas: forma do adulto, mais comum nos homens entre 30 e 50 anos, fumantes e lavradores, e na forma juvenil, que atinge crianças, adolescentes e jovens. O INI/Fiocruz é o Centro de Referência no Estado do Rio de Janeiro para atendimento a pacientes com paracoco, contando com um ambulatório específico para a doença desde 1949.

 

O problema na Baixada Fluminense

“Temos que deixar bem claro que, no momento, o que abordamos é ainda um ponto de interrogação. Nós estamos em fase de estudos com o ambulatório de paracoco do INI, chefiado pelo pesquisador Antonio Carlos Francesconi do Valle, através de uma atividade de vigilância na região e começamos a perceber que havia alguma coisa errada acontecendo na Baixada Fluminense. Em parceria com o Laboratório de Micologia aqui do Instituto começamos a realizar pesquisas e gerar investigações e ações para compreender melhor o que está acontecendo”, destacou Priscila.

Entre os anos de 2015 e 2016, o INI recebeu sete casos de jovens pacientes com sintomas de paracoccidioidomicose, todos oriundos da Baixada Fluminense (Mesquita, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Xerém, etc.), além de prestar atendimento a um menor de idade internado em um hospital da região, número muito acima da média, que seria de dois a três casos em um ano. “A hipótese que estamos trabalhando é que o grande volume de remoção de terra por conta das obras do arco metropolitano do Rio de Janeiro dispersou o fungo pelo ar ocasionando esse grande número de casos em indivíduos suscetíveis”, informou a dermatologista.

Entre as reflexões apresentadas pela médica, estão o alto número de pacientes jovens vulneráveis, a sorologia positiva em seis dos oito casos analisados, com quadros de moderados a graves de saúde nesses pacientes, incluindo um óbito no Hospital Evandro Chagas, no INI/Fiocruz. O atraso no diagnóstico devido ao pouco conhecimento da doença pelos médicos gerando, com isso, um maior risco de complicações para os pacientes.

“Temos que trabalhar para promover uma maior investigação ambiental nessa região, realizar atividades de divulgação da doença, oferecer teste sorológicos de triagem para os pacientes e fazer um referenciamento dos casos. A situação é grave e, apesar do Vale do Paraíba ser a maior área endêmica para a paracoco no estado do Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense vem ganhando importância recente”, ressaltou.

Por fim, o pesquisador do Laboratório de Micologia e membro honorário da Sociedade Internacional de Micologia Humana e Animal (International Society for Human and Animal Micology – ISHAM), Bodo Wanke, lembrou que há uma subnotificação da doença, até mesmo por conta da pouca divulgação que ela tem. “Isso é apenas a ponta do iceberg. Para cada novo caso registrado, podemos ter de mil a dez mil infecções subclínicas que podem gerar uma grande epidemia. As escolas públicas da região são uma excelente fonte para pesquisarmos essas infecções subclínicas em crianças e jovens e trabalharmos para combater a paracoco”, encerrou.

Fonte: Fiocruz Notícias