Medicamentos x Recolhimento

medicamento-farmaceuticoDe um lado, o faturamento bilionário dos laboratórios farmacêuticos. De outro, o recall de remédios. Desde 1999, oito produtos usados em larga escala foram proibidos ou tiveram seu uso restrito. Especialistas explicam por que isso ocorre


Qualquer leigo sabe que uma pessoa com diabetes, pressão alta, artrose, artrite e outras doenças duradouras necessitam do uso diário de remédios. São milhões de pacientes, um filão de rendimentos seguro para os laboratórios farmacêuticos. A necessidade dessas pessoas criou um mercado bilionário. Apenas no Brasil, a oitava economia do mundo, os números são impressionantes.

Segundo a empresa de consultoria IMS Health , em 2009 o mercado farmacêutico no país movimentou em torno de US$ 15 bilhões e a expectativa é de que até 2013 cresça entre 8% e 11% ao ano. O bolo bilionário é repartido por empresas como Bayer Schering, Medley, Pfizer, União Química, Distribuidora Santa Cruz, Hypermarcas e Mantecorp, entre outras.

Para manter o crescimento desse mercado, a indústria aposta sempre em novas drogas medicamentosas, anunciando novidades milagrosas para diversas doenças do mundo moderno: diabetes, hipertensão, problemas cardíacos e neurológicos, além do câncer, são as apostas principais dos laboratórios. "Por ano, a indústria pede em média a patente e o registro de 30 a 40 moléculas inéditas de medicamentos", afirma a farmacêutica Tatiana Lowande, gerente geral de Medicamentos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Se a indústria investe, ela também sofre erros de percurso, com a retirada do mercado de um medicamento antes anunciado como de última tecnologia, capaz de tratar uma dor ou um problema em menor tempo e com resposta mais positiva. Desde 1999, as autoridades sanitárias do país, juntamente com as da Europa e dos Estados Unidos, retiraram do mercado ou exigiram a mudança na bula de oito remédios campeões de venda. Dessa lista, faz parte o Vioxx, o anti-inflamatório mais vendido no mundo até 2004, quando foi proibido por provocar distúrbios cardíacos. Por ano, a Anvisa cancela em média o registro de 15 medicamentos, a maioria de produção nacional e baixo consumo. O cartão vermelho, nesses casos, é recebido por efeitos colaterais indesejáveis, informações incorretas nas bulas e embalagens e até falta de condições de funcionamento do fabricante.

Porém, de vez em quando o mercado farmacêutico sofre terremotos de alta intensidade. Em setembro, pacientes com diabetes do tipo 2, aquela que se adquire na vida adulta, foram surpreendidos com o anúncio de que a Anvisa proibiu a venda do remédio Avandia, indicado para controle da glicemia sem necessidade do uso de insulina. A justificativa tem como base estudos que comprovam riscos maiores (de 28% a 39%) de infarto, insuficiência cardíaca e derrame. Ou seja: o benefício não é maior do que possíveis complicações.

O remédio também foi recolhido das farmácias europeias e o uso é feito com restrições nos Estados Unidos. O laboratório produtor, GlaxoSmithKline, em comunicado via e-mail ao Correio, disse que respeita a decisão das autoridades sanitárias, mas garante que o "Avandia é uma importante alternativa de tratamento para pacientes portadores de diabetes tipo 2, quando usado junto a um grupo apropriado de pacientes". O certo, até agora, é o prejuízo que a empresa apresentou no terceiro trimestre deste ano: o balancete apresentou uma queda de 3,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Só no Brasil, em 2009 foram vendidas 83.150 caixas do Avandia.
Nessa pista de altos e baixos, uma nova crise se desenha no futuro dos medicamentos de alta tecnologia, para desespero dos pacientes que necessitam deles. O FDA, o todo poderoso órgão americano fiscalizador de medicamentos e alimentos, acendeu a luz vermelha para remédios com bifosfonatos, como o Bonviva, indicados para o tratamento da osteoporose. Segundo estudos de cientistas dos Estados Unidos, os bifosfonatos foram criados para fortalecer os ossos, mas apresentam um efeito contrário: a droga aumenta o risco de fraturas do fêmur.

Força na fiscalização



Para os especialistas da indústria farmacêutica, a exclusão de um produto faz parte da rotina dos serviços de vigilância, que devem ficar atentos às reações adversas e problemas detectados na produção e comercialização de substâncias farmacêuticas. É também uma demonstração de que a fiscalização feita por agências reguladoras, como a Anvisa, e por instituições científicas independentes está mais rigorosa. "Não há dúvida de que o monitoramento se intensificou nos últimos 10 anos", garante o médico João Massud Filho, diretor científico da Sociedade Brasileira de Medicina Farmacêutica, entidade que reúne representantes de laboratórios farmacêuticos, diretor do laboratório Cristália e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Segundo ele, a descoberta e a produção de um remédio novo é um processo longo, com a duração de cerca de 10 a 15 anos. E caro. Fontes da indústria americana afirmam que todos os anos são investidos mais de US$ 50 bilhões. Porém, há divergências sobre o tema. Enquanto os laboratórios estimam que droga nova custa em torno de US$ 1 bilhão até chegar às farmácias, a médica americana Marcia Angell, ex-editora da revista científica The New England Journal of Medicine e autora do livro A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos (Editora Record), reduz essa quantia à metade – US$ 500 milhões. A organização internacional Médicos Sem Fronteira também aposta nesse patamar.

Os custos, de qualquer forma, são altos. Apesar disso, os efeitos adversos reais de um remédio só serão rastreados quando ele chegar ao mercado e for consumido por milhões e milhões de pacientes. Apesar dos estudos clínicos com um medicamento preverem as interações, especialistas ouvidos pelo Correio acreditam que 5% deles surjam apenas depois da comercialização.

O endocrinologista e pesquisador João Lindolfo Borges, do Centro de Pesquisa Clínica do Brasil e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), explica que é questão de escala. Durante a fase de testes, 10 mil selecionados experimentam a medicação. Depois de sua entrada no mercado, o número de usuários passa a ser de milhões. Nesse grau de exposição, aparecem outras reações colaterais. "As pessoas que participam dos testes têm perfil bem delineado, são cuidadosamente selecionadas, a fim de que se obtenha o máximo de segurança e aumentem as chances de aprovação do medicamento pelas autoridades sanitárias", diz o médico brasiliense que participa de vários estudos clínicos na área de endocrinologia.

Ele complementa: quando o remédio é lançado, passa a ser consumido por pessoas com diferentes hábitos de vida, com outras doenças associadas e que fazem uso das mais diversas medicações. "Aí, surgem as provas que determinam o custo-benefício de uma droga. Foi o que ocorreu com o Avandia, com relatos de casos graves de complicações desde 2007, proibido agora no Brasil e na Europa", afirma o pesquisador.

O pesquisador Carlos Vidotti , professor das Faculdades Integradas do Planalto Central (Faciplac/DF), acredita que a liberação de um novo medicamento deve ocorrer com mais cuidado e cautela. "Os novos produtos farmacêuticos devem ser inseridos paulatinamente no mercado, inicialmente para grupos restritos e depois para outros maiores", explica ele, autor da tese de doutorado Medicamentos novos e as necessidades do SUS.

Na primeira fase, tendo como exemplo um anti-inflamatório, o remédio seria receitado apenas por médicos reumatologistas e ortopedistas para portadores de doenças reumáticas e ortopédicas. Depois, para um grupo semelhante, mas portadores de outras enfermidades, como diabetes. E, na fase final, todos os médicos poderiam receitar esse produto para todo e qualquer paciente. "Assim teríamos um maior controle dos efeitos adversos sobre a população", garante Vidotti. Para ele, essa seria a fase quatro na liberação definitiva e segura de um remédio: o da comercialização.

 

Com indicação médica

Participante de provas de Iron Man, Euclides Pessoa costuma tomar anti-inflamatórios, mas sempre com prescrição médica

"Sempre usei todos os tipos de anti-inflamatórios – Arcoxia, Vioxx, Prexige. Preciso deles para tratar as lesões e assim poder competir." A declaração pode parecer exagerada, menos para o triatleta Euclides Pessoa, 45 anos, participante de provas de Iron Man.

Durante cada competição, ele nada 3.800m, pedala 190km e corre 42km. Para estar em condições de competir, treina seis dias por semana.
Por ter essa rotina exaustiva de exercícios, lesões podem surgir a qualquer momento. "Estou usando de uma crise de tendinite no pé direito. Durante 21 dias, tomei comprimidos para tratar a inflamação", conta Kito, como o atleta é conhecido.

Os anti-inflamatórios usados por ele são os da classe de inibidores de COX-2, enzima que provoca inflamação nas articulações. Mas podem aumentar riscos de problemas cardíacos. "Sempre uso com acompanhamento médico. E, como tenho bom condicionamento, nunca enfrentei nenhum problema", acredita o triatleta brasiliense.


Fonte: Matéria publicada e de direito de Correio Braziliense

Artigo por Maria Vitória