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Depois dos pulmões, os rins são o órgão mais afetado pela Covid-19

 

No início da pandemia causada pelo coronavírus, na China, pouco se sabia sobre a doença. Ainda há muito a ser revelado pelos cientistas até a produção de vacinas e medicamentos eficazes, mas já se sabe que a Covid-19, primeiramente descrita apenas como uma infecção respiratória, pode afetar o funcionamento dos rins e outros órgãos do corpo, como o sistema circulatório, favorecendo a formação de coágulos no sangue, o coração, fígado, intestino e até o cérebro. “Estamos diante de uma doença sistêmica, com diversos aspectos a serem investigados em todo o organismo. Sabemos que, depois da falência do pulmão, a falência renal é a mais comum em pacientes em estado grave de Covid-19”, disse o médico nefrologista José Suassuna, chefe do Setor de Nefrologia do Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Hupe/Uerj) e professor da Faculdade de Ciências Médicas da instituição.

Suassuna, que ao longo da sua trajetória vem desenvolvendo pesquisas com apoio da FAPERJ, tendo sido contemplado nos editais Pensa Rio e Apoio à Pesquisa em Transplante de Órgãos e Tecidos, explica que os pacientes com doenças renais estão entre os grupos de risco para a Covid-19, assim como pessoas portadoras de outras comorbidades, como diabetes, doenças cardíacas, respiratórias e hipertensão – muitas vezes, desconhecidas pelos próprios pacientes, que não dispõem de informação ou recursos para acompanhamento médico regular. “A doença renal crônica pode ser um dos fatores de risco que predispõe a uma evolução mais desfavorável da Covid-19”, disse. “Além da percepção mais comum, de que o rim é o grande filtro do organismo, pessoas com doenças renais também têm outras deficiências. Elas têm deficiência da resposta imunológica e, também, de alguns hormônios essenciais à saúde, como a eritropoietina, que regula a formação das hemácias, células de transporte de oxigênio no sangue”, completou.

No entanto, ele destaca que o mais preocupante é que, além das doenças renais estarem entre os fatores de risco para o agravamento da doença, alguns pacientes que nunca apresentaram doenças renais antes de contraírem a Covid-19 podem sofrer os efeitos do coronavírus nos rins. “Muitos pacientes em estado grave, que precisam ir para o Centro de Tratamento Intensivo (CTI), onde são entubados sob ventilação, frequentemente apresentam complicações nos rins. Pela nossa experiência aqui no Hupe, eu diria que entre 30 e 40 por cento dos pacientes nesse estado grave, em CTI, passaram a desenvolver complicações renais. Há artigos publicados internacionalmente que relatam que, em alguns lugares do mundo, esse número chegaria a 50 por cento. Quando a insuficiência respiratória é acompanhada da insuficiência renal, a taxa de mortalidade sobe para 50 a 80 por cento”, ressaltou. “As informações sobre a incidência e gravidade da insuficiência renal aguda na Covid-19, embora preliminares, são muito importantes para planejar a alocação de máquinas, insumos e recursos humanos para enfrentamento da pandemia”, acrescentou.

Suassuna observa que, nesses casos graves, os rins são muito afetados pela Covid-19. Em alguns desses pacientes, é necessário realizar procedimentos de diálise. Ele citou um artigo publicado no The New England Journal of Medicine, intitulado Multiorgan and Renal Tropism of SARS-CoV-2, em que pesquisadores da University Medical Center Hamburg–Eppendorf descrevem a análise do tecido renal após a necropsia de pacientes que faleceram com Covid-19 (ainda não realizada nas instituições de pesquisa fluminenses). “Nas imagens de microscopia do estudo, é possível visualizar os efeitos do coronavírus no tecido renal e notar a ação destrutiva celular, com a necrose bem evidente nas células dos túbulos renais dos pacientes com quadros mais graves de Covid-19”, citou.

Segundo Suassuna, outro ponto a ser considerado no tratamento da pandemia, do ponto de vista da Nefrologia, e que tem sido abordado em artigos científicos internacionais diversos, inclusive em uma publicação no Lancet, de pesquisadores alemães, é a possibilidade da urina ser uma “vitrine” capaz de revelar aos médicos como será a evolução da gravidade da Covid-19 em pacientes com casos moderados – aqueles que precisam dar entrada nos hospitais pelo menos para utilizar oxigênio. “O estudo mostra que, através do exame de urina, é possível verificar que a associação de alterações simples funciona como ‘marcador’ de maior risco de evolução desfavorável nos dias seguintes à internação de pacientes com casos mais leves e moderados de Covid-19. Essas alterações são, por exemplo, perda de proteína, aparecimento de leucócitos e perda de sangue na urina”, detalhou. “Daí a importância do acompanhamento dos exames de urina nesses pacientes”, justificou.

Até o momento, entende-se que a Covid-19 afeta diversos órgãos do corpo, além dos pulmões, porque a via de entrada do vírus nas células ocorre por meio dos receptores conhecidos como enzima conversora da angiotensina 2 (ECA2), presentes com alta densidade em diversos sistemas do organismo, incluindo os rins. O médico nefrologista lembra que ainda há muito a ser investigado pelos cientistas sobre os males causados pelo coronavírus, incluindo seus efeitos sobre os rins. “Ainda não temos dados da evolução dos pacientes que tiveram alterações renais graves, mas melhoraram o suficiente para receber alta. Como a doença é muito recente, não sabemos se, no longo prazo, surgirão complicações renais residuais devido ao coronavírus”, concluiu Suassuna.

 

Fonte: FAPERJ