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Oito em cada dez estabelecimentos de saúde no Brasil possuem um sistema eletrônico para armazenar as informações dos pacientes. Porém, apenas dois em cada dez guardam os dados apenas em formato eletrônico. As estatísticas da quinta edição da pesquisa TIC Saúde mostram que há muitos desafios no caminho da digitalização dos dados brasileiros em saúde. O país pretende sanar parte desse problema, mordaz para a gestão e eficácia dos gastos públicos, a partir de um projeto de integração de dados piloto que será desenvolvido e testado, até o primeiro trimestre de 2020, no estado de Alagoas.

A proporção de estabelecimentos de saúde – públicos e privados - com sistema eletrônico cresceu 15 pontos percentuais em relação a 2014. Das 42,9 mil unidades básicas de saúde (UBSs) do país, cerca de 21,6 mil têm algum tipo de informatização. Entretanto, de acordo com o levantamento TIC Saúde, do Comitê Gestor da Internet no Brasil, os dados digitalizados com mais frequência são os de natureza administrativa, questões relativas ao atendimento clínico e ao apoio direto o cuidado ao paciente permanecem em papel. Quatro problemas principais são elencados para isso: falta de recursos financeiros para investimento em tecnologias, ausência de treinamento das equipes, falta de suporte técnico em tecnologia da informação e falta de prioridade por parte das políticas públicas governamentais.

Nesse sentido, realizar a evolução tecnológica do Sistema Único de Saúde (SUS) é uma necessidade. O projeto apresentado pelo Departamento de Informática do SUS, durante o MV Experience Fórum 2019, realizado nesta semana no Recife, pretende não só atacar essa problemática, como também criar uma infraestrutura de big data que permita o compartilhamento de dados entre os diversos entes da saúde, incluído o sistema privado. A Rede Nacional de Dados em Saúde (RDNS) será uma plataforma que criará um prontuário único do paciente, a partir do Conjunto Mínimo de Dados da Atenção à Saúde (CMD), que poderá ser consultado por profissionais e gestores independente do local de atuação.

“Existe uma perda de informação grande entre os setores assistenciais. O SUS não está integrado entre ele mesmo. Uma informação de uma consulta médica em um serviço público não serve para outro local onde eventualmente o paciente possa ser atendido. Isso gera uma redundância e perda de tempo e uma duplicação de pedidos de exames”, afirmou o presidente do Fórum de Inovação em Saúde (FIS), Josier Vilar. Estima-se que o Brasil perca cerca de R$ 15 bilhões por ano em função da ausência de integração entre as informações em saúde.

Com o novo sistema proposto, os dados serão armazenados em nuvem e disponibilizados em blocos para cada estado gerir. “Primeiro vamos unificar os dados para garantir o acesso à informação. Hoje, sem isso, não há a possibilidade de monitorar, identificar o desperdício, saber como pode ser mais eficiente. Vamos começar com dados de medicamentos, contato assistencial, sumário de alta e imunização. Essas informações, quando disponibilizadas para o profissional de saúde, irão ampliar a visão dele sobre o indivíduo. Isso olhando para a transição do cuidado, quando ele sai da atenção primária para a especializada”, detalhou o diretor do Departamento de Informática do SUS, Jacson Barros.

A meta é que as informações possam trafegar em todos os níveis de cuidado. “Do ponto de vista de gestão, hoje os estados e municípios mandam os dados para a federação e a federação não devolve, para que eles possam gerir. A ideia é que a informação venha mais instantânea tanto para o gestor quanto para o profissional de saúde”, disse Jacson Barros. A escolha do estado de Alagoas como piloto considerou o tamanho da área coberta e as deficiências da região. “Há uma dificuldade de integrar o público com o público, o privado com o privado e depois o público com o privado. É algo que só se consegue por meio de um projeto-piloto. Como o Brasil é tão diverso, o ideal é começar em cidades menores”, explicou Josier Vilar.

Para ele, os ganhos de digitalizar os dados passam pela possibilidade de predizer doenças a partir de avaliação genética, de hábitos de vida e até de avaliação das condições socioeconômicas. “Se cada fator desse estiver em um big data acessível e compartilhável, gera eficiência na tomada de decisão para planejar sanitariamente a saúde da população”, disse. A ideia do DataSus é construir o sistema com tecnologia aberta, sem investimento inicial de licença. Para o fundador e presidente da MV, Paulo Magnus, o futuro da saúde passa pela possibilidade de apropriar e guardar dados que signifiquem melhorias na saúde. “Não adianta ter só os dados do medicamento que a pessoa tomou ou do resultado de uma tomografia. É preciso ter dados em tempo real, para fazer com que as pessoas não fiquem doente. Tudo isso considerando a Lei Geral de Proteção de Dados”, afirmou.

 

Texto por Alice de Souza - Jornal Diario de Pernambuco