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Um artigo de revisão recentemente publicado no periódico Current Opinion in Virology analisou os efeitos da “imunidade de rebanho” na circulação de cinco arbovírus – os vírus da dengue, zika, chikungunya, febre amarela e febre do Nilo Ocidental. Entre os autores do trabalho estão o pesquisador da Fiocruz Bahia, Guilherme Ribeiro, e os pesquisadores visitantes Uriel Kitron e Albert Ko.

A “imunidade de rebanho” se dá quando um número alto de pessoas se tornam imunes após adquirir determinada doença e, assim, protegem o resto da população que não se infectou ou não foi vacinada, porque a transmissão da doença se torna mais difícil com a redução das pessoas suscetíveis na população. Revisando a literatura, os pesquisadores constataram que a imunidade de rebanho, após as pandemias de zika e chikungunya, alcançaram cerca de 50% em várias regiões das Américas.

Para os arbovírus com transmissão humano-mosquito-humano, como dengue, zika e chikungunya, a imunidade de rebanho tem um grande impacto na circulação viral e no risco de infecção humana, com grandes surtos explosivos quando esses vírus são introduzidos em populações que nunca foram expostas a eles. Após um grande surto inicial, pequenos surtos periódicos ou longos períodos com baixa transmissão viral pode ocorrer, uma vez que a imunidade de rebanho limita a eficiência da transmissão ou mesmo a conduz a uma extinção temporária.

No caso dos vírus da febre amarela e da febre do Nilo Ocidental, por suas transmissões envolverem ciclos enzoóticos que tem, respectivamente, primatas não humanos e pássaros como reservatórios dos vírus na natureza, a circulação desses vírus e ocorrência de surtos em humanos é menos frequente por causa da interações complexas entre clima, populações de mosquitos vetores, nível de imunidade nas populações de hospedeiros que servem de reservatórios para os vírus e oportunidade de encontro dos vírus com populações humanas suscetíveis.

Em 2018, um estudo liderado por Ribeiro e com a participação de vários pesquisadores da Fiocruz sugeriu que a grande epidemia de zika que ocorreu em Salvador, em 2015, tenha gerado imunidade de rebanho cruzada para o vírus da dengue, levando uma importante redução na transmissão da dengue na cidade nos anos seguintes. Essa possibilidade de imunidade de rebanho cruzada entre os vírus da zika e da dengue é biologicamente justificada pelo fato dos dois vírus serem da mesma família e mesmo gênero (Flavivírus) e apresentarem muitas similaridades genéticas e antigênicas.

Outro estudo, de 2019, liderado por Ko e também com a participação de vários pesquisadores da Fiocruz, demonstrou o contrário: que pessoas que já tinham tido dengue previamente tiveram menos chance de adquirir infecção por zika, também dando suporte a possibilidade de imunidade de rebanho cruzada entre esses dois vírus.

Esse tipo de revisão é importante para ajudar na compreensão dos padrões temporais de circulação dos arbovírus, em especial pelos desafios enfrentados pelos sistemas de vigilância. Os autores sugerem que o investimento em programas de vigilância e pesquisa, impulsionado pelas recentes epidemias e pela atenção dispensada a elas pela mídia, deve ser realizado de forma consistente e contínuo para um melhor entendimento da dinâmica da transmissão dos arbovírus.

 

Fonte: Fiocruz Bahia