Os preços doentios dos medicamentos contra o câncer

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O jornal britânico Financial Times publicou um artigo de John Gapper sobre os altos preços dos medicamentos usados no combate ao câncer. “Se o pior acontecer, há um consolo: este é o melhor momento da história para se contrair câncer. Você tem uma chance melhor do que nunca de se curar ou de viver uma vida mais longa após um tratamento menos desagradável. Porém, há um possível efeito colateral considerável: a ruína financeira”.

Um fluxo de notícias médicas animadoras surgiu a partir de um encontro anual de pesquisadores e médicos da US Oncology: não só é numa nova geração de drogas na qual eles estão trabalhando, mas estão atacando uma ampla gama de tumores. A imunoterapia – que usa o sistema imunológico do corpo para destruir o câncer - está mostrando sinais de melhora da expectativa de vida de muitos pacientes.

O problema é o alto preço dos medicamentos, tais como: Bristol-Myers Squibb e Merck Opdivo Keytruda, cada um custa US$ 150.000 para um tratamento completo nos EUA. Mesmo que um paciente se qualifique para o Medicare, o sistema de saúde dos Estados Unidos para maiores de 65 anos, poderia ser cobrado US$ 30.000 em pagamentos adicionais por alguns meses a mais de vida. Alguns medicamentos funcionam melhor juntos, o que multiplica a conta.

Uma rebelião está estourando entre os médicos de oncologia dos Estados Unidos, liderados por um pequeno grupo no hospital Memorial Sloan Kettering em Nova York. "A última etapa do ciclo de inovação - levar as drogas aos pacientes - está completamente quebrada", diz Peter Bach, diretor do Centro de Política de Saúde no hospital, se recusaram a prescrever um medicamento para o câncer por causa do preço.

O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido está tomando uma posição mais difícil. O Instituto Nacional de Saúde e Assistência Excellence (Nice) rejeitou o olaparib, um tratamento do câncer do ovário produzido pela AstraZeneca. O preço de £ 4.200 pelo tratamento mensal fere a diretriz de Nice que diz que um medicamento não deve custar mais do que £ 30.000 por ano adicional de vida de um paciente, ajustado pela qualidade.

É claro que as empresas não podem continuar a inflar os preços dos novos medicamentos, ou os sistemas de saúde serão abalados na medida em que cada paciente com câncer avançado vão pedir o tratamento. A ciência é muito eficaz; drogas que pareciam que só funcionariam em tumores raros, mantendo a conta baixa, estão começando a ter um impacto sobre doenças comuns.

É muito menos claro ainda como os preços estão sendo fixados. As companhias farmacêuticas admitem tacitamente que estão aproveitando a demanda de consumo altamente inflexível, através da qual podem elevar os preços e as pessoas seguem comprando o produto, para tratar de recuperar ao máximo os gastos de pesquisa e desenvolvimento, e os bilhões de dólares que pagam para comprar empresas bio-farmacêuticas donas de um ou dois medicamentos magníficos. Os preços dos medicamentos para o câncer são um grande ensaio pouco científico.

Este mercado, se pode ser chamado assim, funciona de maneira estranha. Em vez dos preços diminuírem quando se autoriza um novo fármaco, eles aumentam. Todo novo produto – inclusive se é só pouco melhor que os demais, e inclusive se é prescrito só quando outro não funcionou – é mais caro.

Um estudo realizado pelo Dr. Bach e outros encontrou que os preços de medicamentos contra o câncer aumentaram 12% anual entre 1995 e 2013.

Os pacientes e os médicos não enxergam os medicamentos novos como competidores, mas como adições a uma bateria de tratamentos para os doentes de câncer gravemente enfermos. Pode-se receitar para uma pessoa três fármacos, todos com preços elevados. A arisco de morte aumenta sua disposição de pagar altos preços.

Se estão assegurados, ou o governo paga, não têm nenhuma razão para se preocupar. Ninguém, nem sequer as empresas farmacêuticas, acreditam que isto é sustentável. Portanto, o que deve ser feito? Um remédio é que um monopsônio de compra limite o acesso dos pacientes aos medicamentos de alto custo para obrigar a baixar os preços. Este enfoque é levado ao seu extremo por Nice no Reino Unido, e também opera em diversos graus em países fora dos EUA.

No entanto, tem seus defeitos, especialmente se uma pessoa tem seu tratamento negado porque se considera que o ajuste de qualidade de sua vida não justifica o custo. Tampouco oferece uma recompensa clara a uma empresa que é realmente inovadora, em vez de produzir um avanço marginal. Outros países se beneficiam do fato que os pacientes norte-americanos pagam altos preços nos medicamentos, o que lhes permite conseguir um melhor acordo.

Nos EUA o Dr. Bach sustenta que os preços devem estar diretamente relacionados com o valor dos medicamentos para os pacientes no lugar de serem fixados artificialmente justo acima do preço dos rivais anteriores.

E, no lugar de um só fármaco de imunoterapia custar o mesmo se é prescrito para os melanomas cutâneos raros ou cânceres de pulmão comuns, deve também variar de acordo com a condição que o medicamento vá tratar.

Isso se assemelha mais à maneira em que o mercado deveria funcionar, sempre e quando essa flexibilidade também reduza o custo médio de medicamentos contra o câncer. A nova geração de recursos é uma maravilha científica e o custo da inovação está, sem dúvida, destinado a ser alto. Mas se o paciente acabou falindo, o tratamento não foi um êxito.

 

Fonte: Portal JB - Jornal do Brasil