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Começando em 2020, as pesquisas possuem enfoque na ciência básica e buscam aprofundar as possibilidades anti-inflamatórias dos canabinoides no tecido nervoso

 

 

O Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e a Entourage Phytolab, pioneira no desenvolvimento de medicamentos à base de cannabis no Brasil, acabam de firmar uma parceria científica para pesquisar a ação dos diferentes compostos canabinóides nas células nervosas humanas. O objetivo é desenvolver estudos que permitam explorar futuramente diferentes possibilidades de tratamentos para epilepsia e para doenças como Alzheimer, Parkinson, dores de origem neuropática, entre outras.

A comunidade científica mundial está vendo na Cannabis grandes promessas de tratamento para algumas doenças graves da atualidade. No entanto, antes do desenvolvimento de qualquer produto, é necessário investir em pesquisa básica para saber até onde essas esperanças estão fundamentadas, e obter mais pistas sobre qual combinação de substâncias seria mais efetiva nestas doenças.

"A Entourage nasceu com a missão de democratizar o acesso a tratamentos à base de Cannabis no Brasil. Para isso, há cinco anos investimos em pesquisa brasileira para o desenvolvimento de produtos mais eficientes e a custos menores", afirma Caio Santos Abreu, CEO da Entourage Phytolab. "Nosso primeiro medicamento chega ao mercado em 2021 e será usado no tratamento de epilepsia. A parceria com o IDOR nos apoiará no desenvolvimento de outros medicamentos, voltados para condições como dores e doenças inflamatórias crônicas". Neste primeiro momento, o enfoque do projeto será a testagem de substâncias da Cannabis em células neurais, avaliando especialmente seu potencial de ação anti-inflamatória.

"O principal objetivo é compreender melhor os diferentes potenciais dessas substâncias e de suas diversas combinações. A partir desses primeiros resultados, poderemos selecionar os melhores caminhos de desenvolvimento terapêutico, que no futuro deverão evoluir para ensaios clínicos com nossos próprios medicamentos fitoterápicos", diz Abreu. "A experiência da equipe no estudo de canabinóides, o domínio da tecnologia para desenvolvimento dos organóides, a estrutura tecnológica e a comprovada excelência das pesquisas do IDOR foram fatores decisivos para que o instituto fosse escolhido para a parceria com a Entourage", completa o CEO.

Segundo o neurocientista do IDOR e professor da UFRJ, Stevens Rehen, o maior desafio dos estudos com Cannabis no país é o percurso burocrático que requer autorizações especiais dos órgãos sanitários e federais, além da necessidade de importar as substâncias de outros países. Esses fatores aumentam os custos e causam interrupções no fluxo da pesquisa, fazendo com que muitos cientistas desistam da jornada. "Com o apoio da Entourage, esse fluxo será muito facilitado, porque a empresa está envolvida em todo o processo, desde a extração da planta até a chegada ao laboratório. A empresa também possui muita dedicação jurídica ao assunto, coletando todas as autorizações especiais necessárias para acelerar o fornecimento das substâncias", relata Rehen.

Mesmo antes da parceria, o neurocientista e sua equipe já se dedicavam ao desenvolvimento de estudos com Cannabis. Em um deles, os pesquisadores testaram de maneira não-invasiva o efeito dos canabinóides em células neurais de pacientes com síndrome de Dravet, doença rara e resistente aos tratamentos convencionais, que muitas vezes leva seus portadores a uma morte precoce ainda na infância. Os primeiros resultados desta pesquisa, ainda em andamento, são promissores.

 

A tecnologia por trás da parceria IDOR-Entourage

O procedimento não-invasivo, que é utilizado neste e em outros estudos do IDOR, se baseia em recolher, a partir da urina de pacientes, células epiteliais que serão posteriormente induzidas a se tornar células-tronco pluripotentes. A partir deste ponto, elas podem ser transformadas em células de qualquer tecido humano. No caso dos estudos envolvendo a neurologia, elas são manipuladas até formarem tecidos ou organoides cerebrais, pequenas estruturas análogas ao cérebro humano no início de seu desenvolvimento. Essas estruturas possuem a mesma genética de seus pacientes doadores, o que permite observar em laboratório as interações positivas ou negativas dessas células com variadas substâncias.

Esta tecnologia vem trazendo uma contribuição essencial para entender a forma como diversas doenças afetam o nosso corpo. Foi através da infecção desses organoides com o vírus Zika que o IDOR participou da descoberta multi-institucional que correlacionou a arbovirose com a explosão de casos de microcefalia no Brasil, entre 2015 e 2016. Já durante a atual pandemia, métodos similares também estão sendo aplicados para compreender as ações do novo coronavírus no cérebro humano.