Mulheres enfrentam riscos para alisar os cabelos

 

As mulheres nunca mediram esforços para ficar mais bonitas. Há séculos, elas se apertavam em espartilhos para manter a cintura fina. Na China e no Japão, chegaram a enfaixar os pés para que parecessem menores. Agora, as loucuras ultrapassam as dores da depilação. Muitas mulheres estão colocando a saúde (e até a vida) em risco para manter os cabelos lisos e sem volume.

 

O procedimento

Não é difícil encontrar um salão onde é possível fazer a escova progressiva, também conhecida como gradativa. A promessa é que, em uma ou duas horas, a mulher saia com as madeixas lisas. O preço médio varia de R$ 150 a R$ 800.

O processo é semelhante em diversos estabelecimentos: a cabeleireira lava a cabeça da cliente com xampu de limpeza profunda e, depois, aplica o creme para alisar os cabelos (é nessa mistura que o formol pode ter sido utilizado). Em seguida, é feita uma escova normal e a modelação com uma chapinha.

 

 

Rede Globo
Para a escova progressiva ficar completa, é necessária a chapinha (Foto: Reprodução)Algumas mulheres são orientadas a não lavar a cabeça por três dias. Em outros casos, a lavagem pode ser feita após 24 horas. "Isso depende dos produtos usados", explica a dermatologista Denise Steiner, coordenadora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

 

E é exatamente o produto que deve ser o alvo da atenção de quem quer ter os cabelos lisos. Em primeiro lugar, as clientes devem checar o creme que será usado no procedimento e verificar se ele é regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

 

Quem costuma ter alergias pode fazer um teste do creme no próprio braço. "É só colocar um pouco de creme e esperar para ver se aparece alguma reação. Se houver vermelhidão ou coceira, é melhor desistir desse produto", afirma Denise.

 

Produto proibido


Depois de checar se os cremes estão em conformidade com a Anvisa, é necessário conferir se o profissional usa formol na mistura aplicada nos cabelos. Apesar de negarem a prática, muitos cabeleireiros usam essa substância para garantir a manutenção do resultado.

De acordo com a Anvisa, "o formol é uma solução de formaldeído, matéria-prima com uso permitido em cosméticos nas funções de conservante (limite máximo de uso permitido 0,2% - Resolução 162/01) e como agente endurecedor de unhas (limite máximo de uso permitido 5% - Resolução 79/00 Anexo V)". Acima desses percentuais, o formol é proibido. A assessoria da agência informa que o formol causa queimaduras nas vias respiratórias, irritação nos olhos e é cancerígeno.

Se perceber que o cabeleireiro vai usar formol, os médicos recomendam que a pessoa desista do alisamento, procure a Vigilância Sanitária da cidade e denuncie.

Alguns salões fazem propaganda de escovas progressivas realizadas à base de cremes com chocolate, morango, baunilha e outros produtos. A dermatologista Denise Steiner diz que a maioria desses produtos usa a mesma fórmula, mas apenas com essências diferentes. "O chocolate tem algumas substâncias que ajudam na hidratação. Mas, nos outros casos, a diferença é mesmo o aroma e não a fórmula."

Outros produtos, à base de tioglicolato, guanidina e amônia, dão bons resultados, comenta o dermatologista Valcinir Bedin, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos do Cabelo.

A dermatologista Ana Paula Meski, da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que é importante procurar um profissional capacitado para realizar a escova progressiva.

"Não é indicado o uso de alisantes por pessoas não-qualificadas. Portanto, o procedimento não deve ser feito em casa, mesmo quando os produtos usados no alisamento são regulamentados pela Anvisa", afirma.

A duração do alisamento varia de acordo com o cabelo e com o número de lavagens. "Em alguns casos, a escova progressiva dura seis meses. Mas os fios de cabelos novos nascem naturais e ficam armados, sem o efeito do produto", explica a dermatologista Denise Steiner.

 

Legislação

 A Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Ministério da Saúde, proibiu a exposição e a venda de formol - ou formaldeído (solução a 37%) - em drogarias, farmácias, supermercados, armazéns, empórios, lojas de conveniências e drugstores. Em resolução publicada hoje no "Diário Oficial da União", a Anvisa justifica a proibição afirmando que leva em conta os "riscos para a saúde" com o uso inadequado da substância, como ocorre na chamada "escova progressiva", realizada em salões e institutos de beleza para alisamento de cabelos.


A resolução diz que a proibição leva em consideração também que a utilização da substância formaldeído (formaldehyde) na produção de produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes está definida "na regulamentação sanitária específica de cosméticos". O texto alega que os "efeitos nocivos" do emprego do formol em produtos capilares para alisamento dos cabelos "ameaçam principalmente a saúde da pessoa que manipula a substância, adicionando-a a outros produtos capilares, da que aplica a mistura e, também, da pessoa que recebe a aplicação do produto." Segundo a Anvisa, os estabelecimentos que descumprirem a resolução estarão cometendo infração sanitária prevista Lei 6.437, de 1977, podendo ser responsabilizados civil e penalmente.