coronavirus microscopia

Necropsias já detectaram novo coronavírus em testículo e glândulas salivares. Potencial contaminação em relações sexuais ainda precisa ser investigada.

 

A Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) tem um grupo de pesquisa que desenvolve um protocolo de coleta de tecido das vítimas da covid-19 durante a necropsia. Com isso, será criado um biobanco compartilhado entre pesquisadores, que possibilitará o estudo das manifestações sistêmicas da doença.

O professor Paulo Saldiva, do Departamento de Patologia da FMUSP, diz que o grupo já tem em torno de 22 necropsias sendo analisadas. Com os estudos, foi possível identificar que o vírus tem uma alta capacidade de disseminação para outros órgãos, inclusive testículos e glândulas salivares, o que incluiria uma potencial contaminação em relações sexuais e através da saliva – algo que ainda precisa ser investigado. Ele ressalta que, quando envolve doenças infecciosas, esse tipo de análise demanda diversas precauções para evitar a contaminação da equipe envolvida.

 

Após novo coronavírus ser achado em testículo, estudo vai verificar presença no sêmen

Outro estudo realizado no HFMUSP parte da similaridade celular entre os pulmões, rins, testículos e epidídimos (ducto que coleta e armazena os espermatozoides) para buscar a presença do novo coronavírus no organismo. O vírus tem como alvo principal os pulmões, mas em cerca de 7% dos pacientes em estado grave é verificada a insuficiência renal. Portanto, outros órgãos se tornam possíveis portas de entrada para o vírus, que precisa penetrar na célula para levar ao adoecimento.

Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, o professor Jorge Hallak, da FMUSP, pesquisador e coordenador do Grupo de Estudo em Saúde Masculina do Instituto de Estudos Avançados (IEA), explica que os pulmões possuem receptores denominados ACE-2, também presentes nos testículos, epidídimos e rins. A partir dessas informações, o estudo se debruça sobre quais acometimentos sofrem esses órgãos, uma vez que se tornam portas de entrada do sistema corporal para o novo coronavírus, e busca entender o quanto são responsáveis pelo estado geral do paciente.

“Ao estudar o porquê esse vírus entra nas células dos testículos, vamos tentar encontrar mecanismos que consigam inibir a ação do patógeno na célula. O paciente que está internado e não está grave pode, com o devido consentimento, ter o espermatozoide ejaculado e utilizado na pesquisa. Sendo uma célula que sai do corpo, não é preciso fazer biópsia ou outro exame invasivo”, afirma o médico.

Hallak informa que, além de identificar se há ou não presença do vírus no sêmen, o estudo vai verificar em que estágio da doença o vírus se faz presente na ejaculação. Confirmada a presença no sêmen, o vírus poderá ser cultivado em laboratório para que seja analisada a sua viabilidade em outros fluidos. Com isso, será possível estudar “toda uma cadeia de testes para analisar os radicais de oxigênio (moléculas prejudiciais à célula) e um fenômeno que ocorre quando a membrana externa do espermatozoide sofre danos destrutivos”.

O professor complementa que a “doença tem uma característica particular já conhecida: uma tempestade de citocinas, que são substâncias altamente metabólicas, inflamatórias e imunológicas, então o indivíduo não morre pelo vírus, mas sim por seu efeito no metabolismo, causando uma reação inflamatória brutal”.

Na sua avaliação, além de inédito, esse estudo tem grande relevância: “Já se conhecem alguns mecanismos de lesão no espermatozoide e nos testículos, e com a pesquisa poderemos, eventualmente, oferecer outro tratamento complementar para auxiliar na evolução dos pacientes no curto prazo”.

Hallak lembra que os homens são os mais suscetíveis à evolução para um quadro grave da covid-19, o que ocorre principalmente pelo fato de se prevenirem menos do que as mulheres e buscarem menos ajuda médica. “A interação do metabolismo desses indivíduos com fatores externos faz com que eles não tenham uma resposta imunológica ou inflamatória boa frente ao agressor.”

 

Fonte: Jornal da USP