Literatura científica relata de falta de olfato a AVC e crises epilépticas; pesquisadores reuniram achados em um artigo preprint, ainda sem revisão

 

 

A elevada prevalência de sintomas neurológicos em pacientes acometidos pelo coronavírus na China levou pesquisadores da USP e da Universidade da Região de Joinville (Univille) a fazerem uma revisão não sistemática de alguns artigos publicados recentemente em revistas científicas. O estudo, ainda não revisado por outros cientistas, está disponível desde abril na plataforma preprints.org.

As complicações observadas atingem o sistema nervoso central (encéfalo e medula espinhal) e o sistema nervoso periférico (gânglios e nervos). A anosmia – perda da percepção de cheiro – e a disgeusia – diminuição do paladar – foram frequentemente relatadas por pessoas com a covid-19. “A série de casos relatados pelos chineses mostram que a prevalência dessas patologias é muito maior do que se achava em 2019”, conta ao Jornal da USP Marcus Vinícius Magno Gonçalves, neurologista da Univille e o último autor do paper.

A intenção dos cientistas brasileiros com a divulgação deste paper foi chamar a atenção de profissionais de saúde e cientistas. Jean Pierre Schatzmann Peron, coordenador do Laboratório de Interações Neuroimunes do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, está debruçado em tentar entender como o vírus acessa o sistema nervoso central. “A gente se baseia em outros coronavírus humanos, causadores de Síndrome Aguda Respiratória Grave (SARS) e da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), que passam de um neurônio a outro até atingir o sistema nervoso central”, explica Peron. “Mas ainda é especulação, pois muito pouco se sabe sobre os mecanismos de ação da Sars-CoV-2.”

 

Sintomas da COVID-19

Desde o aparecimento dos primeiros casos de covid-19 na China, os principais sintomas relatados são febre, cansaço, tosse seca, febre alta, além de pneumonia e dificuldade para respirar. Porém, com a propagação do vírus pelo mundo, muitas outras manifestações foram relatadas e documentadas nos últimos meses, principalmente sintomas neurológicos, como a perda de olfato e paladar.

Um possível mecanismo de acesso ao sistema nervoso central pelo novo coronavírus Sars-Cov-2 é via bulbo olfatório, primeiro nervo craniano responsável por receber informações dos neurônios receptores olfativos. Pode ser esse um alvo de infecção do coronavírus.

O artigo brasileiro cita um estudo publicado por Ling Mao, do Departamento de Neurologia do Union Hospital, afiliado à Faculdade Médica de Tongji da Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, na China. Os pesquisadores analisaram 218 pacientes hospitalizados e diagnosticados com covid-19. Dores de cabeça, tontura, estado confusional, ataxia, doença cerebrovascular aguda e epilepsia apareceram em 24% dos internados. Os dados foram coletados entre 16 de janeiro 2020 e 19 de fevereiro de 2020.

A hiposmia – redução do olfato, também tem chamado a atenção da comunidade médica. Em um estudo europeu publicado em abril de 2020, descreveram disfunções de olfato e paladar cerca de 86% e 88% dos 417 pacientes infectados. Dentre eles, cerca de 13% relataram fantosmia (alucinação olfativa) e 32% tiveram parosmia; de todos os 76 pacientes que não apresentaram obstrução nasal ou rinorreia (corrimento nasal excessivo), quase 80% apresentaram anosmia ou hiposmia. “O que nos intriga é que, de todos os pacientes que tiveram neuropatia olfatória, apenas 40% ficaram curados após 30 dias do início dos sintomas”, afirma Marcus Gonçalves.

O que chamou a atenção dos pesquisadores foram pacientes jovens, com menos de 50 anos, que tiveram AVC isquêmico e hemorrágico associado à fisiopatologia do vírus. Curiosamente, os pacientes com problemas no sistema nervoso central foram associados a casos mais graves da doença. Encefalomielites disseminadas agudas (ADEM) também foram relatadas. “É uma doença que acontece após o contato viral; ela faz lesão no encéfalo e na medula espinhal”, explica Gonçalves ao Jornal da USP.

Meningites, encefalites e a síndrome de Guillain Barré foram observadas na coorte chinesa (estudo que analisa um determinado grupo de pessoas durante um longo período de tempo). “Por isso é importante chamarmos a atenção da comunidade científica sobre esses sintomas, pois o médico vai precisar intervir de maneira diferente, já que há essa correlação entre coronavírus e quadros neurológicos”, explica Peron, cujo grande desafio agora é compreender como o sistema imunológico responde a esse tipo de infecção. “Muitos fatores devem influenciar, inclusive a carga viral presente nos pacientes.”

 

Percepção clínica

Adalberto Studart Neto é neurologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (FM) da USP. Ele está à frente do Grupo de Estudos em Neurocovid, montado recentemente no HC. O médico é cuidadoso ao falar sobre a relação entre neuropatologias e covid-19. “Frequentemente, observamos sintomas neurológicos, mas não sabemos se eles estão direta ou indiretamente relacionados ao vírus”, explica. “Crises epilépticas, por exemplo, podem também ser consequência de distúrbios sistêmicos causados pela tempestades de citocinas (tempestade inflamatória) que o vírus causa no organismo”, diz o médico ao Jornal da USP.

Studart Neto enfatiza que esses distúrbios podem estar correlacionados com o estado clínico dessas pessoas. “Ainda é muito cedo para tirarmos conclusões, mas as necropsias vão ajudar a comunidade científica a entender o que realmente acontece no organismo de um paciente infectado pelo coronavírus.”

Já Gonçalves, que está participando de um estudo de coorte em Joinville, é mais enfático. “A minha percepção como médico é que vamos ter um grande grupo de pacientes com disfunção cognitiva a médio e longo prazos”, afirma. “Além disso, como parece que há uma perda de neurônios durante a doença, vamos assistir a um aumento da incidência de doenças neuropsiquiátricas.”

Peron vai abrir uma outra frente de estudo: as consequências da covid-19 na gestação. “Por mais que as mulheres não sejam suscetíveis à infecção, queremos investigar o impacto que o vírus pode causar ao feto”, completa.

 

Texto por Fabiana Mariz - Jornal da USP