Butantan

Com aprovação de patente de vacina contra E. coli, Butantan dá mais um passo no desenvolvimento de novo imunizante

 

 

Após receber a aprovação da patente de uma vacina contra a bactéria Escherichia coli enteropatogênica, o Instituto Butantan trabalha no desenvolvimento do imunizante contra a doença, capaz de provocar diarreias que levam à morte. Também conhecida pela sigla EPEC, a Escherichia coli enteropatogênica é uma das seis categorias patogênicas da E. coli que causam infecções intestinais. Transmitida via fecal-oral, isto é, pela ingestão de água ou alimentos contaminados, ela é comum em países em desenvolvimento por conta da escassez de saneamento básico, e mata anualmente até 2 milhões de crianças de diarreia no mundo.

A questão sensibilizou o professor e pesquisador do Butantan Wilmar Dias da Silva em 2005, durante o Programa de Cooperação Temática em Matéria de Ciência e Tecnologia (Proáfrica), projeto de transferência de tecnologia para a criação de um serpentário em Moçambique. De volta ao Brasil, ele idealizou uma vacina recombinante para combater a doença. Nesse tipo de imunizante, que é obtido por meio de engenharia genética, ocorre uma combinação de DNA ou RNA de organismos diferentes, cujo resultado é inserido dentro de um vetor — nesse caso, o escolhido foi a bactéria BCG, que é amplamente utilizada em pesquisas por sua segurança e propriedades imunogênicas.

Quem aceitou o desafio de levar o projeto adiante, sob a supervisão de Wilmar e da pesquisadora Roxane Piazza, do Laboratório de Bacteriologia, entre outros cientistas do Butantan, foi a então mestranda da Universidade de São Paulo (USP) Halyka Vasconcellos. “Inserimos os genes de duas proteínas, a BFPA e a intimina, que são responsáveis pela adesão da EPEC no intestino, no interior da BCG. Aplicamos, então, essa BCG modificada em camundongos, gerando uma resposta imunológica positiva”, resume a pesquisadora. O trabalho foi publicado no renomado periódico Vaccine, em 2012, mas continuou sendo aprimorado por Halyka ao longo de seu doutorado e pós-doutorado, até o registro de patente ser submetido e aprovado, em maio deste ano, pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

“Foi a concretização de um sonho, o qual não teria realizado sem a contribuição de inúmeros pesquisadores do Butantan que me auxiliaram nessa trajetória”, afirma Halyka, que hoje é professora universitária e dirige dois laboratórios em Nova Friburgo (RJ). Além dela, de Wilmar e de Roxane, constam ainda como inventores da patente, por sua contribuição técnica, os cientistas Karina Scaramuzzi, Ivan Pereira Nascimento, Jorge da Costa Ferreira Junior, Cecilia Abe e Andre Kipnis. “Nós não trabalhamos interessados no lucro pessoal, e sim no bem que a vacina vai trazer à sociedade”, ressalta o professor Wilmar.

A próxima etapa da pesquisa será a realização dos ensaios pré-clínicos e clínicos (fases 1, 2 e 3). “Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas a aprovação da patente certamente vai facilitar a negociação desta nova tecnologia”, comemora o gerente de inovação do Butantan, Cristiano Gonçalves Pereira.

 

Como é feito um registro de patente

Em 1917, o então presidente do Instituto Butantan, Vital Brazil, doou a patente de seus soros antipeçonhentos ao governo do estado de São Paulo. De lá para cá, a instituição já recebeu a aprovação de 78 patentes, no Brasil e no exterior, entre vacinas, medicamentos, kits diagnósticos e até mesmo métodos de produção. Assim como todas as grandes farmacêuticas, o Butantan tem hoje um escritório de patentes.

Da pesquisa à aprovação, há um rigoroso processo que envolve a análise dos projetos, a organização dos documentos e a submissão dos pedidos de registros no INPI. O titular do produto são todas as instituições envolvidas no processo, já que é comum a parceria entre universidades e empresas, por exemplo.

Mas nem todas as pesquisas têm potencial para gerar patentes, conforme explica Nayara Gaban, analista de propriedade intelectual do Butantan. “Os requisitos que devem constar obrigatoriamente no documento de patente são novidade, aplicação industrial e atividade inventiva”, diz Nayara.

No que depender dos especialistas do Butantan, a trajetória de sucesso iniciada por Vital Brazil deve trazer ainda muitas conquistas à saúde pública. “O nosso objetivo é que a patente seja apenas um primeiro passo, ou seja, que o pesquisador dê continuidade ao trabalho e que a tecnologia aprovada dê origem a novos estudos e produtos”, completa Cristiano.

 

Fonte: Instituto Butantan