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Um estudo comparativo da Fiocruz Pernambuco apontou para um maior crescimento das taxas de incidência (detecção) de covid-19 em estados do Norte e Nordeste quando comparadas num primeiro período até meados de abril com o acumulado até meados de maio. Além disso a aceleração dessas taxas nesses locais foi muito acima do resto do país. A análise, elaborada pelo pesquisador Wayner Vieira – a partir de dados disponíveis na plataforma Covid-19 no mundo, no Brasil e em Pernambuco, da Secretaria de Planejamento e Gestão de Pernambuco (Seplag) - retrata um deslocamento da maior incidência da Covid-19 entre os estados brasileiros e sinaliza para uma possível influência, nessa trajetória, das iniquidades sociais e da vulnerabilidade das condições de vida nas áreas mais pobres do Brasil.

Treze estados - todos situados nas regiões Norte e Nordeste – tiveram crescimento dessa taxa de casos por milhão de habitantes aumentando mais que a média brasileira. Em dois deles o aumento foi de quase 50 vezes em maio: Tocantins (49,8) e Sergipe (47,8). As taxas de Alagoas, Pará e Paraíba cresceram mais de 20 vezes. Enquanto Roraima, Piauí, Acre, Maranhão, Amazonas e Amapá cresceram mais de 10 vezes e Bahia, Roraima, Ceará e Pernambuco viram a taxa ser multiplicada por 9. Para se ter uma ideia, a média do crescimento no país foi de sete vezes, número em si já considerado alto pelos estudiosos. O Rio Grande do Norte foi o único estado do NE abaixo desse número, com 6,6.

Vieira, que integra o departamento de Saúde Coletiva da Fiocruz PE e é estatístico e epidemiologista por formação, torna visível com seu estudo a evolução do número de casos de covid-19 detectados, da taxa por milhão de habitantes, do número de óbitos e da taxa de letalidade nos estados brasileiros, na comparação dos dados disponíveis na plataforma da Seplag para os períodos até 19 de abril e até 19 de maio.

O pesquisador considera que a pandemia atingiu o país, no primeiro momento, em áreas “menos pobres”, com a covid-19 sendo trazida pelos viajantes que circularam pela China, Europa e posteriormente América do Norte para o eixo Rio-São Paulo, Distrito Federal, distrito industrial de Manaus, Fortaleza e Recife - essas duas últimas cidades devido às suas características de turismo intenso.

Até 19 de abril, dos dez estados com a maior taxa de casos por milhão de habitantes, destacavam-se três da região Sudeste (SP, RJ e ES) e uma unidade do Centro-Oeste (DF), quatro do Norte (AM, AP, RR e AC) e dois do Nordeste (CE e PE). Essa lista incluía os locais com maior Produto Interno Bruto (PIB) entre as unidades da federação (SP, RJ e DF).

Quando se observa o período até 19 de maio, dos dez estados com maior taxa, nove pertencem às regiões Norte (AM, AP, RR, PA e AC) e Nordeste (CE, PE, MA e SE) e o único do Sudeste passa a ser o Espírito Santo. O que demonstra a necessidade de atenção para os estados com menos recursos, de forma a conter o crescimento da doença.

Para se ter uma ideia desse ranking, basta observar os quatro estados que lideraram as listagens nos dois momentos observados. O Amazonas passou de uma taxa de 493 casos por milhão de habitantes em abril, para 5.300 em maio. O Amapá passou de 492 para 5.100. Roraima, de 366 para 3.277 e Ceará, de 356 para 3.078. Na comparação, estados com mais recursos parecem menos atingidos pela pandemia, como por exemplo o Paraná, onde a taxa passou de 86 para 217, e o Rio Grande do Sul, de 75 para 329.

“Esse crescimento acelerado no Norte-Nordeste não pode ser explicado tão somente por questões de momento, existe uma lacuna de desenvolvimento nesses estados, refletida por exemplo pelo IDH (Índice de desenvolvimento Humano)”, explica Wayner. “O IDH reflete um passivo social, humano, existente. Os estados onde as taxas mais aumentaram são os mais pobres. Com a interiorização da covid-19 que está acontecendo, essa situação tende a ser observada com mais intensidade.”

 

Acesse no site da Fiocruz Pernambuco a compilação completa dos dados

 

 Fonte: Fiocruz Pernambuco