meningite surto censura

Censura do governo à epidemia de meningite de 1974 e suas lições. Falta de informação levou população ao pânico sem saber como prevenir a doença

 

 

Entre 1973 e 1974, nos governos de Emílio Garrastazu Médici (1969 – 1974) e Ernesto Geisel (1974 – 1979), algumas informações proibidas de circular internamente no Brasil passaram a ser pauta da folha Notícias Censuradas, distribuída entre militantes e exilados políticos residentes em diversos países.

de diferentes continentes. Redigido "de qualquer parte do Brasil,” conforme o rodapé, e impresso na então União Soviética, a iniciativa era uma das formas de fazer os acontecimentos chegarem ao conhecimento de alguns leitores.

Noticias Censuradas abordava assuntos variados. Tratava de temas proibidos no âmbito da economia, política, racismo, educação, saúde. Um tema que voltou circular neste 2020, em razão da pandemia do novo coronavírus, diz respeito a censura militar à epidemia de meningite em 1974. Apoiado no decreto-lei 1.077, de 1970, que instituía a censura prévia à imprensa, os veículos não podiam falar da doença. Os militares alegavam que o tema era uma questão de segurança nacional.

Circulando na clandestinidade, Noticias Censuradas destacou o tema meningite em duas edições. Na segunda quinzena de agosto de 1974, a folha trouxe a seguinte nota: “[...] Quando se evidenciou a epidemia de meningite, no mês de julho, em São Paulo, a censura, durante mais de dez dias, proibiu a divulgação de informação, sobretudo dados sobre o número de internados em hospitais e o número de mortos. Como resultado disso, a população de São Paulo ficou profundamente alarmada, pois logo se espalhou a informação de que os jornais foram obrigados a não dizer exatamente o que se passava. A proibição da censura era tão drástica que chegou ao ponto de censurar uma entrevista do ministro da Saúde. Nessa entrevista, o ministro responsabilizou seu antecessor no cargo por não haver feito encomenda de vacinas, no ano passado, quando já havia se verificado um número elevado de casos de meningite na Grande São Paulo. Sentindo que a proibição de dar informações precisas sobre a epidemia estava aumentando o pânico, em Brasília resolveram liberar os jornais, permitindo que publicassem dados sobre a epidemia. Mas, determinaram que nenhum comentário fosse permitido relacionando a epidemia com problemas sociais, ou com o estado geral da saúde pública no Brasil [...]”.

Na segunda quinzena de outubro de 1974, com o título Caixões lacrados, Notícias Censuradas repercutiu uma nota da revista Times: “[...] Da revista Times, em reportagem que publicou sobre o surto de meningite no Brasil: ‘Ficou patente ter a doença cruzado a barreira das classes sociais, atacando os mais ricos moradores de São Paulo. Alguns médicos afirmaram que os micróbios de 1974 devem ser de uma espécie nova, que se tornam uma ameaça mesmo para aqueles que lidam com os defuntos. Assim, para reduzir o número de pessoas expostas à contaminação, como medida extrema, um hospital de São Paulo está colocando os corpos das vítimas em caixas de metal, fechadas a solda, antes de serem postos nas urnas mortuárias’ [...]”.

Notícias Censuradas era uma publicação simples, rodada em papel sulfite e sem nenhum apuro linguístico. Mas, neste caso, mostrava como a censura contribuía para a expansão da doença, que podia ser prevenida com informação sobre formas de contágio e sobre as formas de manifestação da enfermidade.

Notícias Censuradas está disponível para pesquisa na página do Centro de Documentação e Memória (CEDEM), da Unesp - www.cedem.unesp.br 

 

Por Assessoria de Comunicação do CEDEM, da Unesp